Manuais “Arte de Pensar”

arte de pensarNo Brasil ainda não temos nada que se compare com os manuais “Arte de Pensar” de Portugal desenvolvidos para serem trabalhados com alunos do ensino médio de lá. O objetivo desses manuais é apresentar um pouco de história da filosofia, fornecer ferramentas para que os alunos possam filosofar (ensina-se no início bastante lógica formal e informal) e em seguida apresenta-se os textos dos filósofos (procurando sempre apresentar visões conflitantes sobre um mesmo problema filosófico). Exige-se do aluno que consiga não apenas interpretar bem os textos, mas diferenciar um problema filosófico de um problema não filosófico, que seja capaz de analisar argumentos e dizer se são bons ou não, se concorda ou não criando, assim, seus próprios argumentos. Não há fórmula fechada e pronta para dizer quais são os bons argumentos, mas há algumas idéias de quais seriam os maus ou péssimos argumentos. O aluno vai aprendendo a filosofar à medida que treina e constrói e reconstrói argumentos. Abaixo cito alguns links de capítulos dos manuais e também orientações que dão para os professores ou ainda falando sobre a proposta desses manuais. O que me pergunto é: quando pensaremos em manuais assim visando esse objetivo? Não entendo ao certo como fazemos para “filosofar” com nossos alunos. Muitos professores que vejo por aí “filosofam” com seus alunos de maneira bem solta e “livre” sem grande rigor ou cuidado. O aluno nem sabe se está ou não está filosofando, ou no âmbito da filosofia. Enquanto isso o professor se diverte, se deleita sem ser crítico do seu próprio trabalho.

No Brasil nem “Convite à Filosofia“, nem “Filosofando“, nem “Para Filosofar“, nem “Pensando Melhor” (livro prefaciado e elogiado por Rubem Alves), ou o Livro Didático de Filosofia do Paraná elaborado pelos próprios professores da rede desse estado (sob ’supervisão’ de um parecerista externo) se aproximam dessa proposta.

Aqui um trecho tirado do Livro do Professor (Arte de Pensar):

(…) o que se exige do estudante não são meros relatórios do que acabou de estudar; mas também não são meras opiniões irreflectidas e desconhecedoras. O que exigimos do estudante é que ganhe a pouco e pouco a autonomia intelectual que lhe permita ter uma perspectiva pessoal mas informada e reflectida das matérias dadas. Informada, porque o estudante tem de conhecer a tradição filosófica relevante: não pode limitar-se a pensar por si sem ter em conta as teorias e argumentos dos grandes filósofos clássicos e contemporâneos estudados. E reflectida porque o estudante tem mesmo de tomar uma posição e dizer o que ele próprio pensa, depois de ter reflectido com um mínimo de seriedade nas matérias em causa. (…)

Guia

Livro do professor:

Avaliação das aprendizagens em filosofia:

Índice: 10.° ano

Primeiro capítulo, livro para 10° ano:
O que é filosofia?

Quarto capítulo, livro para 10°ano:
Determinismo e liberdade na ação humana

Quinto capítulo, livro para 10° ano:
Valores e valoração, a questão dos critérios valorativos

Nono capítulo, livro para 10° ano:
A necessidade de fundamentação da moral

Décimo terceiro capítulo, livro para 10° ano:
A arte: produção, consumo, comunicação e conhecimento

Índice: 11° ano

Capítulo 5 Estrutura do acto de conhecer

Capítulo 7 Conhecimento vulgar e conhecimento científico

Capítulo 11: Ética, direito e política (manual anterior a 2008)

Capítulo 12: A experiência e o juízo estéticos (manual anterior a 2008)

Problemas de Filosofia Política
António Paulo Costa

Glossário:

O objetivo que se atinge são esses:

Trabalhos dos estudantes:

Interessante que depois ligava com os Exames Nacionais. A prova estava em acordo com aquilo que era ensinado nos 10°, 11° e 12° anos. Porém isso foi até 2007 e depois acabou. O pessoal do site criticanarede.com e as associações de professores de filosofia de Portugal criticaram, manifestaram seu descontentamente, mas não teve jeito.

Exames Nacionais do Ensino Secundário – Filosofia
Planos de estudo criados pelo Decreto-Lei n.º 286/89
de 1997 – 2007

Algumas causas do insucesso escolar

estudando-6

1) Barulho excessivo. Que o adolescente goste de conversar todo mundo sabe, porém se esse não se controla acaba exagerando e dessa maneira não consegue acompanhar os raciocínios e explicações dos professores que exigem sempre silêncio, atenção e concentração. Exemplo: imagine você numa aula de matemática que fique conversando ou que fique com a cabeça em outro mundo, em outras coisas, se você perde a linha de raciocínio de resolução do problema você não vai entender mais nada. E também não irá adiantar tentar resolver exercícios sozinho, pois se você se perdeu e não pediu ao professor que voltasse, então você não vai conseguir. A menos que consiga depois que algum colega lhe explique ou que consiga ver em algum livro ou site passo a passo e segui-los sozinho.

2) Arrogância. Todos sabem que adolescentes são extremamente arrogantes, mas precisam aprender a moderar isso, porque do contrário deixam de aprender e persistem em erros bobos. A arrogância e aprendizagem são totalmente opostas. Se o aluno acredita que já sabe sobre um determinado assunto ou que ele já entendeu tudo que havia para entender de um determinado conteúdo então a partir deste momento ele não aprende mais nada. Exemplos de arrogância: o professor de física, ou filosofia, ou geografia vai corrigir o aluno de um erro de grafia. O aluno imediatamente encontra uma justificativa para não ter que ouvir o que o professor lhe diz: “você é professor de português?”, ou “o professor também não erra?”. Ou seja, o aluno é incapaz de aprender. Está fechado na sua arrogância e não ouve, não aprende.

Uma outra situação boba em relação à arrogância é quando um aluno acabou de aprender um conteúdo e o seu colega tem dificuldades de entender. O aluno na hora já condena o colega: “você é muito burro!”, “eu nunca teria paciência para ser professor!”. Quando é conosco toda paciência do mundo é requerida, já com os outros que se danem.

Outra situação: “ah isso eu já sei, professor!”, “isso nós já vimos”. Ah sim? Então explica. “Humm, ah era mais ou menos que falava de que…”. Nessas horas faria bem Sócrates. E foi por isso que Sócrates foi morto, por desmascarar tanta ignorância daqueles que se pretendiam os conhecedores, os que “já sabiam” sobre tudo.

3) Criação de dialetos. Os alunos hoje em dia cada vez menos conseguem entender o português padrão. Seja por causa da linguagem dos bate-papos virtuais, seja por causa das gírias excessivas que criam, seja porque lêem muito pouco e porque escrevem quase nada em português formal. Poderiam muito bem criar um blog e escrever alguns pensamentos e idéias que possuem, ou algum conto, ou poesias, ou mesmo um diário particular, que poderiam criar para praticar. Os alunos mesmo no ensino médio ainda têm dificuldade de entender que a escrita é diferente da fala. E que para escrever bem precisam de humildade, querer aprender, treinar bastante e ler. Os alunos ainda costumam dizer: “quando estou na internet escrevo ‘tudo errado’”. Como a aprendizagem depende de treinamento  também, os alunos acabam treinando e aprendendo o famoso “internetês” ao invés da linguagem formal. Seria isso também culpa do senhor Marcos Bagno e suas teses sobre o “preconceito lingüístico“? Não estaríamos caindo justamente no que os críticos do sr. Bagno já temiam? Ou seja, o aluno preso dentro de uma capsula não conseguindo compreender nada além daquele contexto de linguagem que ele criou.

4) Não ver sentido no que lê. Os alunos costumam ler passivamente. O que isso significa? Que já se acostumaram a ler um texto sem que esse lhe faça o menor sentido. Os alunos não ficam incomodados que não entendam um texto. Porque se acostumaram que ler e entender são coisas diferentes. Mas aí vai uma novidade meio antiga: Não são! Leitura sem entendimento é como um robô que sabe pronunciar os sons das palavras, mas não sabe o que está dizendo. O aluno precisa se esforçar por entender os textos com todos os recursos que ele possuir: ler o texto se fazendo algumas perguntas e tentando respondê-las mentalmente, ler o texto e escrevendo nele palavras pesquisadas no dicionário, se esforçando para ler uma frase inteira e tentar assim buscar o sentido da palavra desconhecida na frase, pesquisar na internet ou em livros informações desconhecidas, etc. Há ainda sobre esse assunto o problema que como o adolescente não está muito acostumado com a leitura, então facilmente desiste ao se deparar com palavras, informações, nomes que não conheça. Como não tem prática de pesquisar e procurar saber, conhecer, então desiste logo. Mesmo jornais e revistas apenas procura ler somente ou caderno de esportes, horóscopo, resumo das novelas, ou páginas policiais. Isso quando não ficasó nos placares e nas imagens. Esses dias vi um aluno na biblioteca lendo um livro: me assustei e me animei ao mesmo tempo, porém depois vi que era um livro de imagens divertidas.

Como ler um livro?

5) Excesso de pressa. Os alunos são muito apressados. Acreditam, talvez, que como vivemos numa época muito dinâmica, onde tudo é muito rápido, que aprender também seja assim: pá, pum, tá aprendido! Errado! Pá, pum, nada. É preciso calma, silêncio, TEMPO, para se assimilar conteúdos novos. Ler quantas vezes for preciso em busca do sentido. Então o aluno lê um texto todo corridinho e por cima, passa os olhos, lê uma prova totalmente desatento, responde uma prova em questão de segundos, faz um trabalho da mesma forma. Ou seja, não quer “perder” tempo com o seu próprio aprendizado. E no fim quer ser premiado por isso, ou quer achar que realmente aprendeu algo. Infelizmente, não aprendeu e está longe de aprender. Enquanto não mudar essa postura dificilmente irá aprender.

6) Relativismo vagabundo. Hoje em dia o relativismo está na boca do povo. E como não poderia deixar de ser está na boca dos alunos também. O professor ensina algo e o aluno diz: “isso é o que o senhor pensa, professor!“. Isso ainda não chegou na aulas de ciências naturais, ou exatas. Mas em filosofia, sociologia, história, dependendo do que se diga, ou se explique, o aluno crê que pode desqualificar tudo que o professor está dizendo com essa simples frase. Até concordo que o aluno verifique se as informações dadas são verdadeiras ou não, se estão corretas ou não, mas simplesmente anular tudo que o professor está explicando? Até mesmo em correção de provas já ouvi de um aluno: “como tirei essa nota? isso é o que senhor pensa! o que eu penso está correto“. Quer dizer que a objetividade deixou de existir? É o reino das opiniões? Se as teses relativistas fossem radicalizadas na escola os alunos começariam a contestar inclusive matemática, física, química usando-se dos conceitos, dados e informações que eles possuem nas comunidades onde vivem, levando em conta o contexto onde moram, o saber produzido por aquela comunidade, etc. Absurdo.

EduacaoNotas

7) Inversão de cobrança. Há uma tirinha que mostra como era a escola há 30, 40 anos atrás onde o aluno quando tirava notas ruins os pais cobravam dele e hoje em dia quando o aluno tira notas ruins os pais, os alunos, a direção, os secretários da educação e se bobear até o ministro da educação cobram dos professores que se atualize, que mude seus métodos, que valorize mais o que o aluno já traz, que reveja seu método de ensinar, avaliar, que compreenda os “tempos modernos”, etc. “Temos modernos” esses que ninguém sabe dizer exatamente como são. Essa “aprendizagem moderna” que está aí a produzir legiões de analfabetos funcionais. Porém se crê que tudo isso se deve a um atraso por parte dos professores a se adaptar ao novo contexto. Gostaria que explicassem exatamente que contexto é esse onde os alunos aprendem com barulho, sem esforço, sem disciplina, sem estudo pessoal, sem leitura significativa, sem provas, etc. Por favor, me atualizem.

8) Trabalho e aprendizagem. Os pais costumam em um bom número achar que trabalhar é mais importante do que os estudos, do que aprender. O conhecimento para os pais possui um valor superficial. Eles defendem e aparentemente se importam com a escola, com os estudos, porém tudo apenas com o objetivo de que seus filhos consigam sair de casa e tenham um bom emprego. Tanto assim que se surgir a oportunidade de um bom emprego para um aluno de escola pública de comunidade mais simples o pai fará de tudo para que o aluno consiga o emprego e se der para estudar, tudo bem, porém se não der, paciência. O conhecimento como algo que motiva, anima, alimenta o ser humano é algo que passa longe. O conhecimento como instrumento para o ser humano se entender melhor, viver melhor, agir politicamente com mais consciência e etc é algo que perdeu todo o sentido. O conhecimento é mero meio para ascensão social. O que é lamentável. Uma redução incrível da humanidade do homem a sua condição de trabalhador.

9) Ausência de material adequado ao nível cultural dos alunos. Com alunos analfabetos funcionais, ou semi-alfabetizados, acostumados com linguagem de internet, gírias, completamente desacostumados com a leitura, que ainda não perceberam que escrita e fala são coisas diferentes, com vocabulário pobre, com informações muito precárias, ou pouco ricas, não há um livro que seja capaz de servir perfeitamente para um aluno assim. Não há, simplesmente não há. A menos que se use com alunos de ensino médio livros que usuaríamos para crianças. Ainda assim quando formos explicar é preciso de todo um cuidado para se fazer entender, se fazer claro. Quando entro numa livraria já me desanimo ao folhear os livros e ver todas aquelas palavras que já sei que meus alunos não conhecem, ou todas aquelas informações que sei que eles não dispõem e nem correrão atrás para conseguir entender o texto e ainda enriquecer seu vocabulário pessoal.

10) Falta de autonomia. Ou seja, o aluno não é autônomo. Depende sempre que cobrem dele, exijam dele constantemente. Cobrem horários, material, trabalhos, estudo pessoal, que leia, etc. Isso é terrível! Por quê? Porque o dia que não cobrarem ele não fará. E ele só faz porque cobram e não porque ELE QUER, porque ele vê sentido, porque ele entende que é importante, útil e, principalmente, prazeroso! Precisa de alguma regra fora dele dizendo para ele como se comportar, como fazer. A palavra autonomia vem do grego e significa lei própria. Ou seja, o sujeito autônomo seria aquele que se dá a si mesmo as leis, as regras e procura viver de acordo com essas. Ao contrário do aluno heterônomo que precisa de uma lei externa, fora dele (heteronomia). Alunos que precisam sempre de alguém tirando pontos deles, dando “puxões de orelha” verbais, sermões para ver se ele consegue finalmente entender que aquilo é importante para ele. Essa é a maior das batalhas. Se o aluno se torna autônomo, consegue ele próprio se organizar, estudar, sem que ninguém lhe cobre, se ele pesquisa, se interessa sozinho, meu deus, ele está, sem brincadeira alguma, a um passo do paraíso. Esse aluno está prestes a se tornar um modelo para tantos outros. Foi o que fez a escola da Ponte em Portugal, investiu no desenvolvimento da autonomia dos alunos trabalhando por projetos e hoje consegue atingir excelentes resultados de aprendizagem com alunos considerados problemas, difíceis. Consegue ensinar em tempo recorde e uma aprendizagem efetiva. Entrevista com José Pacheco: http://www.youtube.com/watch?v=FIbbMEiVmoU

11) Ausência de sonhos. Um aluno de ensino médio de escola pública está muito desanimado, desmotivado na maioria das vezes. As coisas que o motivam são: parafernálias tecnológicas (celular, videogames, televisões de última geração, ipods, computadores etc), namorar, festinhas, a possibilidade de algum trabalho. Um aluno de ensino médio de escola pública não costuma pensar em universidade. Acha tudo isso muito distante, muito longe de sua realidade. Pouco importa que venham pessoas do Acre, ou de municípios do interior do estado como Trombudo Central, Xaxim, etc e tirem suas vagas na UFSC ou UDESC ou IFSC. Para o aluno é mais importante arranjar uma namoradinha, um namoradinho, fazer sexo, considerar-se mais maduro por isso, engravidar, ter um filho, morar junto e só. Um trabalho no supermercado, ou atendente de loja, telemarketing, ou com os próprios pais e a vida é isso. Alunos imaturos que fazem sexo e se consideram maduros por isso. Quem dera que os alunos fossem mais inocentes para essas questões sexuais e se focassem realmente em conhecer, aprender. É lamentável que muitos alunos possuam uma visão tão limitada da vida e não tenham sonhos maiores (e que não persigam esses sonhos obsessivamente).

12) Estudo como valor. Houve épocas que o estudo era um valor importantíssimo. Para alguns era importante porque fazia com que a pessoa se destacasse na sociedade como alguém culto, inteligente, respeitável. Para outros era importante porque realmente motivava a conhecer mais as coisas: aprender um novo idioma, ler um clássico da literatura, conhecer melhor o universo, entender o que disseram os grandes pensadores da humanidade, dialogar com as mentes mais instigantes que a raça humana já produziu, etc. Para outros era a possibilidade de ascender socialmente. Subir na escala social. Então havia uma pressão grande para que se estudasse, se dedicasse. As pessoas que tinham quarta série, ou quinta série primárias eram muitíssimo orgulhosas disso. Lembro de um senhor muito humilde que conheci que se orgulhava muito de ter a quinta série primária. Lê jornais, revistas até hoje e os compreende. Apenas com a quinta série! Um aluno de ensino médio hoje não sabe sequer ler! Portanto, hoje em dia, o saber perdeu a importância e o valor. Muitos grandes empresários, pessoas da alta sociedade, políticos são completamente ignorantes. São pessoas que cometem erros grosseiros de conhecimento, que consideram o saber uma bobagem menos importante do que ter dinheiro e ao invés de se instruir contratam as pessoas que eles chamam de “nerds” que “perdem seu tempo” estudando e não fazendo outras coisas “mais divertidas” ou “estimulantes”. Não são poucos os empresários, artistas, políticos que se orgulham de ser ignorantes.

13) Conhecimento como prazer. É impossível que os alunos não consigam se motivar pelo prazer que o estudo proporciona. Aprender uma nova língua (seja ela qual for), ler um livro clássico que comoveu milhões de pessoas e se tornou uma peça rara e importante para uma nação, ou que tenha se tornado imortal e se leia até hoje (lembrem de livros como a Ilíada e a Odisséia de Homero, com mais de dois mil anos e que até hoje são clássicos importantíssimos). Ou um livro de história que ajude a entender melhor como chegamos até aqui, por que pensamos o que pensamos, por que há as instituições que temos… Ou livros de ciência que nos estimulem a querer entender o universo, a natureza, a querer explorar mais. O conhecimento por si só é estimulante. Porque como diria Aristóteles “todo homem deseja por natureza conhecer“. Resta saber por que motivo os alunos encobrem essa sua natureza com outras coisas, outros interesses e deixam de querer buscar o conhecimento para gastar horas com outras atividades. Se vê claramente a diferença entre uma criança de 11 anos (quinta série) e um adolescente de 15, 16, 17. A criança é naturalmente curiosa e animada, empolgada, quer saber de tudo. Quanto mais nova mais curiosa. O adolescente tem aquele perfil sonolento, entediado, desanimado, jogado, tudo é um tédio, não vê a hora de chegar em casa e ir para o MSN, ou para o videogame, ou para suas músicas. Com o conceito de adolescente criamos monstros que em outras gerações não existiam.

14) A idéia de adolescência. Em outras épocas não havia um respeito pela idade da adolescência. Nem existia essa idéia. A criança era vista como um pequeno adulto que já podia realizar tarefas de adultos. Meu avô aos oito anos trabalhava como pequeno adulto. Tinha lá algum brinquedinho, quando tinha, não podia de maneira alguma participar das conversas dos adultos (hoje há adolescentes dizendo aos pais como devem viver, agir, etc), não havia uma moda específica para essa idade (roupas próprias), livros próprios escritos para adolescentes (isso nunca existiu!), mas de maneira geral era educado para ser uma pessoa séria, para não falar bobagens, ouvir mais do que falar. Hoje, acreditamos que existe uma idade chamada infância e outra adolescência que devem ambas ser respeitada. Se o adolescente não quer estudar, tudo bem, é assim mesmo, dizem. “É da idade, professor”. Se o adolescente passa o dia todo em frente a tv, ou ouvindo música também é da idade. O que isso significa? Que nesta idade é assim e que nada que eu fizer vai mudar isso? Então, por favor, tragam-no de volta aqui quando ele sair dessa “fase”. Entendo que nesta idade o adolescente queira se rebelar, negar a família, buscar seus pequenos grupos, que só se interesse por música e pequenos dramas existenciais, mas com moderação, por favor. Ou que assuma suas escolhas e seja confrontado com a liberdade. A época da adolescência é a dos grandes impulsos, grandes paixões avassaladoras e decisões impensadas. Se o adolescente arcar com a responsabilidade que a liberdade lhe proporciona, ótimo. Do contrário acho muito sério. Se tornará depois de uns anos como se diz por aí um “adultescente”. Sujeito com 30, 40 anos que se comporta feito adolescente, fala como adolescente, age como tal. Sem responsabilidade, não sabe tomar decisões, se comporta como criança grande, imaturo, desorientado, etc.

Meu avô hoje diz: “eu comi do ruim”. Isso significa que de maneira alguma ele quer esses tempos novamente. E nem eu quero. Mas vejo algumas virtudes de épocas anteriores que hoje se perderam completamente com certos oba-obas da “modernidade”. Eu de maneira geral desconfio de tudo que é moderno, porém também sou crítico em relação ao passado e acho que temos sem dúvida muito que aprender com esse. Afinal de contas, antes as pessoas aprendiam de verdade e hoje não.

A filosofia é útil?

É comum ouvir em sala de aula alguns alunos dizerem: “que isso vai ser útil pra minha vida?“. Quando ouço esse tipo de comentário, penso imediatamente: o aluno quer realmente saber isso que está me perguntando? Ele quer mesmo que eu mostre no que a filosofia pode lhe ser útil e se eu conseguir mostrar ele irá mesmo começar a estudar a filosofia com vontade e dedicação? Ou será que o aluno está me perguntando isso apenas para me provocar, pois no fundo ele próprio já construiu a idéia de que aquilo que estou lhe ensinando é inútil e nada que eu lhe diga vai fazê-lo mudar de opinião? E com base nessa opinião o aluno simplesmente vai deixar de prestar atenção nas aulas, vai colar se possível, não fará as atividades pedidas, quando fizer será de qualquer jeito, não se preparará com dedição para as provas e assim por diante?

Suponhamos que realmente o aluno queira saber se a filosofia pode lhe ser útil ou não na sua vida. O aluno está interessado, curioso nesse assunto. Não tem conseguido dormir por conta desse problema sério. Ótimo! Então vamos lá. Primeiro de tudo: o que queremos dizer com utilidade, útil? O que é isso? Segundo, só aprendemos o que é útil? (nem definimos ainda o que é útil, hein). Terceiro, só devemos estudar o que é útil? Como respondemos a essas questões?

É útil passar horas e horas sem qualquer controle no orkut, no msn, ou vendo televisão ou batendo papo com os amigos, ou com namorada ou namorado? Qual a utilidade disso para a vida de alguém? Desenvolver suas capacidades de interação? Desenvolvimento afetivo? Aprender a socializar? Obter informações sobre a vida de outras pessoas (seres humanos) e com base nessas evitar os erros e ser uma pessoa melhor? É essa a utilidade de se ouvir uma fofoquinha? É por esse motivo? São por esses motivos que perdemos horas de nosso dia fazendo essas atividades ou por que elas nos dão prazer? Elas nos dão prazer imenso. Por isso fazemos isso. Engraçado que quando chegamos na sala de aula cobramos utilidade das disciplinas, não é? Passamos o dia fazendo o que nos dá prazer e quando chegamos em sala queremos utilidade! Os inúteis em busca da utilidade? Não faz sentido, não é mesmo?

Bom, mas vamos deixar isso de lado e fingir que a realidade é outra.

Quando ouço meus alunos falar em utilidade procuro pensar o que querem dizer com isso. Geralmente, costumam usar outra frase: “pra que que eu quero saber disso? de que isso me servirá?“. O aluno acredita que ser útil significa servir para alguma coisa. Servir para fazer algo. Como um manual de instruções (quantos alunos lêem manuais de instrução, hein?!), que lhe serve para aprender a instalar um aparelho de DVD, por exemplo. Precisamos saber qual objetivo que o aluno procura. No caso do DVD o objetivo é colocá-lo para funcionar para assistir DVD’s. No caso do aluno e sua vida qual é o objetivo? Para qual objetivo os conhecimentos aprendidos na escola podem lhe servir? Inúmeros. Realmente, inúmeros. Por exemplo, o aluno pode aprender a escrever de maneira excelente (lendo livros e praticando bastante, levando para a professora ou professor de português toda semana um texto, ou uma poesia) e com isso fazer cartinhas de amor belíssimas para aquelas pequenas lindas que ele deseja conquistar. Com português o aluno pode fazer uma ótima redação, ou uma carta de apresentação para um emprego. Pode aprender um número imenso de palavras e dominar a rima e com isso se tornar um grande rapper, ou um ótimo compositor. Pode ainda aprender a ler jornais muito bem e se informar sobre o que acontece. Pode ensinar outras pessoas a ler e a escrever. Poderá se tornar um grande escritor, ou jornalista. Ser um grande corretor de textos. Ou um blogueiro de sucesso (blogueiro é aquele que escreve em blogs). Ou alguém que é capaz de escrever um protesto do seu bairro sobre a falta de água, ou a falta de luz, ou sobre o aumento da violência. Ou alguém que é capaz de escrever a história do bairro, ou da sua família, etc. Vejam que utilidades não faltam. Basta saber o fim, o objetivo.

No caso da filosofia, os objetivos a serem alcançados podem ser outros. A filosofia te ajuda a pensar melhor. O que isso significa? Com a filosofia você fica mais atento a como as pessoas usam as palavras e os conceitos. Vejam só o que estou fazendo com o conceito de utilidade. Estou tentando entender o que as pessoas querem dizer com isso e quais as conseqüências de se dizer isso (bom, isso supondo que o que estou fazendo aqui tem algo de filosófico, não é? isso pode ser falso). Pensar melhor, então significa estar mais atento ao uso dos conceitos. Por exemplo, o conceito de política. Será que política é sempre algo ruim? Política é sinônimo de podridão, corrupção, lixo? Desde que foi inventada (aliás ela foi inventada ou sempre existiu?) foi com o objetivo de ser algo podre que todos detestassem? Existirá outro tipo de política? Como deveria ser a política? Política é somente aquilo que os políticos fazem? Quais os objetivos da política? Por que não podemos acabar de vez com esse troço? Será que seria ruim não ter mais política? Qual é a origem da palavra política? Que tipos de política que existem? Em todo país é igual?; Ao nos colocarmos essas perguntas e tentar respondê-las estamos pensando sobre o conceito de política. Isso nos ajuda a formar uma opinião sobre conceito de política. Nos ajuda a pensar melhor sobre isso, a entender melhor, a ser críticos quando lemos a palavra política.

Qual o objetivo de aprendermos uma matéria em sala de aula? Geralmente, o único objetivo, infelizmente, é ir bem nas provas. É essa a utilidade. Apenas essa, para a maioria dos alunos. Depois no terceirão ou nos cursinhos de pré-vestibular o objetivo de se estudar é passar no vestibular. Essa é a utilidade. Imaginem só se a utilidade de se aprender um assunto seja não a prova, não o vestibular, simplesmente, mas conhecer melhor as coisas. Não seria muito mais interessante? E MAIS! Vamos imaginar que conhecer melhor as coisas fosse tão prazeroso quanto as horas infinitas que passamos no MSN, orkut, ou com os amigos ou namorando, ou na frente da TV? Não seria fantástico? Além de aprendermos muito mais e com muito mais prazer tenho certeza que nosso desempenho nos vestibulares e provas aumentaria muitíssimo e tudo isso nos faria pessoas muito mais interessantes e inteligentes, não acham?

Podem ler aqui também sobre utilidade da filosofia. Textos bons e nem tão bons assim:

http://filosofafi.blogspot.com/2008/03/para-que-filosofia.html Dona Marilena no seu Convite à Filosofia.

Pra que serve a filosofia? Simon Blackburn – http://criticanarede.com/html/fa_10excerto.html

De onde surge a filosofia? Colin McGinn http://aartedepensar.com/leit_mcginn.html

O que é ciência?

Este ano fiz uma atividade na qual pedia aos alunos que entrevistassem seus professores sobre o que é ciência e se a disciplina que ministram é científica ou não. Notei que quase ninguém sabe ao certo o que é ciência. Entre os próprios alunos a única ciência que parece existir para a maioria deles é a disciplina chamada “ciências” que é ensinada até a sétima série (atualmente, oitavo ano) e depois se torna física e química. Quando se pergunta se a história é uma ciência, ou se a matemática é uma ciência, ou ainda se haveria alguma parte da disciplina chamada ‘português’ ou ‘língua portuguesa’ que teria algo de científico o silêncio se faz em sala. Os alunos se entreolham e não sabem ao certo o que dizer.

Interessante, como é possível que um aluno passe por tantas provas, trabalhos em disciplinas científicas e depois nem tenha idéia do que é a ciência, como ela funciona, como ela formula suas teorias, como comprova ou refuta uma hipótese, o que é um fenômeno científico, o que são evidências e o que não são, como trabalham os cientistas em cada uma das disciplinas, o que é uma comunidade científica, etc. No entanto, quando assistem ao Fantástico ou vêem uma propaganda de televisão acham normal ouvir coisas como: “os cientistas já provaram que tal coisa é certa”, “a ciência descobriu que o amaciante x é melhor do que todos os demais”, “cientistas descobriram essa semana as causas da insônia”, etc. Ninguém fica curioso em saber como eles fazem isso? Quem são “os cientistas”, ou quem é essa “ciência”? Será que é um grupo de pessoas excêntricas que se reúnem em locais fechados e de repente aparecem com verdades sobre o mundo e os homens? Ou será que qualquer um pode ser cientista? Como alguém se torna cientista e o que o cientista faz?

Também porque não se pára um pouco para pensar e ler sobre o que seja ciência, além, é claro, de haver uma cultura científica muito pobre (quantos alunos não me interrogam dizendo coisas como: “o senhor acredita, então, que viemos do macaco? por que que o macaco não evoluiu e se tornou homem, hein?”). Por esses dois motivos entre outros é que surgem as teorias da conspiração (código de Da Vinci, Anjos e Demônios, Zeitgeist, o homem nunca foi à lua, o holocausto nunca aconteceu ou se aconteceu foi um número bem menor do que dizem, etc), ou então falsas idéias sobre o que seja ciência, por exemplo, a idéia que alguns têm de que a bíblia é um livro científico (e não somente moral e metafísico) e serviria supostamente para explicar o surgimento das espécies e por que e como existem tantas e tão variadas e espécies e por que tantas outras desapareceram, ou achar que espiritismo é uma ciência – e muitos pensam isso! – só não dizem ciência do quê, ou não explicam como pode uma ciência nascer de um sussurro, ou de uma iluminação divina ou espiritual para um ser ‘iluminado’, ou não explicam como pode um espírito ser tratado como fenômeno científico – quais os métodos para isso? Quais evidências que sustentam as ‘teorias espíritas’? Existem comunidades científicas espíritas? Ou os já famosos leitores de astrologia - não só os de jornais e revistas, mas aqueles mais arrogantes que fazem mapas e aqueles que acreditam ter uma “fundamentação” séria para essa “ciência”.

Infelizmente, não se ensina nas escolas o que é ciência e seus procedimentos, diversos tipos ou classificações (formal, natural, humana; pura, aplica, etc). Muito menos se pratica ciência nas escolas. Mesmo nas aulas de laboratório de física ou de química o que se faz é tão somente “verificar” o que já se sabia. Ninguém formula uma hipótese qualquer, testa-a e vê se se confirma ou não. Como seria interessante mostrar a ciência viva. Seja a história, a lingüística, a sociologia, a física, a química, a matemática etc. Como iremos fazer com que os alunos tenham vontade de se tornar cientistas se nem sabem o que é isso e como funciona? Como faremos para criar uma cultura científica e crítica mais séria se as pessoas preferem gastar dinheiro com código de Da Vinci ao invés de um bom livro de história? Nesse último caso penso que os livros de teorias da conspiração são mais atrativos com suas polêmicas baratas. Enquanto que os livros de divulgação científica nem sempre são interessantes ou atrativos, ou polêmicos da mesma maneira. É preciso aprender com os ‘conspiradores’ para atrair as pessoas para a ciência.

Indico alguns textos que já trabalhei com meus alunos:

Pode existir uma ciência dos guarda-chuvas? Por que não? O que é ciência, afinal? http://criticanarede.com/html/filos_ciencia2.html

Um exemplo de investigação científica: http://aartedepensar.com/leit_exemplo.html

Ciência e senso comum – http://aartedepensar.com/leit_sensocomum.html

Este não tive a oportunidade de trabalhar ainda, mas é muito interessante. Trata da tentativa de distingüir entre ciência e pseudociência. Os “conspiracionistas” ou conspiradores não podem lê-lo. http://aartedepensar.com/leit_lakatos.html

Filosofia e ciências da natureza, Alguns elementos históricoshttp://criticanarede.com/filos_fileciencia.html

Precisaríamos de um livro que tivesse uma série de exemplos. Algo como:
http://www.ediouro.com.br/as100maioresdescobertas/livro.asp Kendall Haven, 100 maiores descobertas científicas de todos os tempos.
Capítulo disponível no site: http://www.ediouro.com.br/as100maioresdescobertas/leia.asp

As 10 maiores descobertas da medicina
http://www.livrariadafisica.com.br/detalhe_produto.aspx?id=29387

Aqui umas curiosidades: As 7 maiores descobertas científicas do século XX
http://dererummundi.blogspot.com/2007/07/as-7-maiores-descobertas-cientficas-do.html

Professor, mas filosofia não é a arte pensar?

pensar

Defrontei-me com tal questão por parte de aluna de terceiro ano do ensino médio de uma escola pública do município de São José ano passado. Pergunta curiosa que surgiu após a aluna receber uma nota ruim por conta de uma prova sobre falácias e outros assuntos. A aluna então me interroga: “Meu pensamento está errado, professor? Mas filosofia não é a arte de pensar? Meu pensamento não é só diferente do seu?“. Já havia tido contato com certo tipo de comentário semelhante em 2005 quando fiz estágio numa espécie de supletivo para funcionários da UFSC e terceirizados. O aluno do último módulo me dizia: “professor, mas o meu pensamento para mim está certo. Esta nota se refere ao que o senhor acha certo“. Nos comentários da aluna há alguns pressupostos por baixo, passo a analisá-los: 1) De que todo pensamento, por ser pensamento, ou por ser de uma pessoa, é certo e não pode ser julgado; 2) Não faz sentido uma disciplina de filosofia, pois afinal, todos somos filósofos e todos temos nossas idéias e pensamentos e não cabe julgá-los, mas sim, respeitá-los. 3) Não há nada objetivo a partir de onde se possa julgar pensamentos.

Tentei explicar a aluna dando uma resposta meio burocrática. Disse-lhe que se tudo que ela pensa é certo, ou tudo que ela pensa é filosófico, então não faz sentido uma pessoa como eu estar ali a ensinar-lhe algo. Afinal, que fiquei fazendo por quatro anos numa universidade se ao fim qualquer um pode dizer o que quiser e isso não deixa de ser certo, ou de ser filosófico? Esta resposta se refere somente a uma justificativa pela qual alguém pode ministrar aulas de filosofia em escolas. Não enfrenta a questão colocada de frente.

Quanto ao senhor o que lhe respondi foi fazendo uma pergunta: “você, então, acha que não existe objetividade alguma? É o reino das opiniões? Você diz uma coisa e eu digo outra e ficamos assim?“. A prova que fiz com essa turma foi mais complexa. Trabalhei alguns trechos de textos filosóficos e outros tirados de livros de filosofia para ensino médio, sempre no máximo uma página ou duas, que eram, à medida do possível, dissecadas em aula. Na prova pedia, com o auxílio dos textos, que reconstruíssem a argumentação de Platão sobre por que a virtude não poderia ser definida, num trecho do Mênon. E a outra pergunta se referia a um breve trecho do Teeteto de Platão que discutia a questão do relativismo.

O curioso de tudo isso é as pessoas acharem que tudo que elas pensam é certo e não pode ser julgado. Há na escola uma espécie de regra: “quando o professor pedir a opinião pessoal, essa está sempre certa“. Se uma pessoa dá uma opinião pessoal baseada em fatos históricos errados, ou em dados empíricos falsos ou mal interpretados (por exemplo, dizer que algo é vermelho quando na verdade é verde, ou dizer que algo foi provado quando não foi, etc), ou em preconceitos, como é possível que isso esteja certo de alguma maneira? Podemos não saber com clareza e em última análise o que são esses pensamentos certos, mas sem dúvida sabemos identificar erros, preconceitos, idiossincrasias. E isso nos basta.

Interessante ainda que para um aluno de nível médio uma opinião nunca precisa ser fundamentada. Emitem frases como: “Sou contra os homossexuais”, “sou contra o aborto”, “a justiça não existe”, etc. E crêem que desse modo estão realmente dizendo algo quando na verdade só estão dizendo coisas sem procurar se importar muito com aquilo que é dito. Sem muita preocupação se aquilo está certo, ou não está, se está bem fundamentado ou não, se é apenas por preconceito ou se é por uma questão mais séria, legítima. Então no fundo as “opiniões” nem são opiniões de fato. São vácuo, são nada. São frases soltas no ar sem algo que as sustentem.

A questão segue e pode-se aprofundar muito mais do que estou fazendo aqui, mas não quero cansar ninguém. Em sala de aula se tentasse dar uma resposta como essa que estou a dar aqui já veria os bocejos para todos os lados, ou pessoas ao celular, ou com seus mp3, mp4, ipod’s ligados. São os nossos pensadores de amanhã. Não digo que pensar seja bom ou mau em si, em muitos casos pode até fazer mal, porém parece nos que analisar nossas opiniões pode melhor do que não analisá-las. A afirmação é perigosa, mas é uma crença que a sociedade inteira alimenta.

Jorge Ben canta santo Tomás de Aquino

A música pode ser ouvida no site abaixo – basta clicar no botão play:

http://www.acervosdobrasil.com/Faixa.asp?ID=17218 

Outras músicas do álbum Solta o Pavão de 1975 podem ser ouvidas aqui no site oficial do cantor:

http://www.jorgeben.com.br/sec_discogra_disco.php?language=pt_BR&id=14

Letra:

A semelhança da criatura com Deus
É tão imperfeita que não chega a ser
O gênero comum, comum
Pois certos nomes que implicam relação de Deus com a criatura
Deles se predicam temporariamente
E não são eternos, não são eternos e não são eternos
Deve se saber que quem ensinou
Que a relação não é uma realidade da natureza
E sim da razão
Estão enganados, puramente enganados
Estão errados, puramaente enganados
Deus não é uma medida proporcionada ou medido
Por isso não é necessário que esteja contido
No mesmo gênero da criatura
No mesmo gênero da criatura
Da criatura
Por isso dobro os meus joelhos
Diante do pai de nosso Senhor Jesus Cristo
Do qual toda sua sábia paternidade
Tomou nome nos céus e na terra
Assim falou Santo Tomas de Aquino
Assim falou Santo Tomas de Aquino
Assim falou Santo Tomas de Aquino
Assim falou Santo Tomas de Aquino

Senhor que tens tido feito o nosso refúgio
Senhor que tens tido feito o nosso refúgio
Senhor que tens tido feito o nosso refúgio
Senhor que tens tido feito o nosso refúgio

Sugestão de livro: Existo, logo penso

Este livro de filosofia é bastante interessante, pois apresenta um outro modo de fazer filosofia. Apresenta filósofos vivos ponderando acerca dos mais diversos assuntos. Lançando algumas luzes sobre questões que incomodam as pessoas no seu dia-a-dia e outras. Procurando mostrar o que a filosofia pode ter a dizer sobre essas questões e assim ajudá-las a pensar de outras maneiras, ou a aprofundar certas inquietações. Em vários momentos eles o fazem citando textos clássicos de Platão, Kant, Aristóteles e em outros não. Abaixo transcrevo algumas questões de cada um dos quatro capítulos (organizados kantianamente) para motivar a leitura do livro. As perguntas eram feitas no site http://www.askphilosophers.org/ e posteriormente perguntas e respostas foram organizadas neste livro por Alexander George. O livro pode ser encontrado em livrarias no setor de auto-ajuda e não de filosofia. Quem sabe se está revisando o conceito de auto-ajuda na contemporaneidade. Num sentido mais sério realmente poderíamos encaixar o livro nesta categoria. Naturalmente, não encontrás neste livro respostas prontas e fechadas para as questões. Então se esse é o seu objetivo, desista. Não gaste seu dinheiro. Aí vão as perguntas:

Parte I: O que eu posso saber?

“Eu acredito que sou a única coisa que realmente existe. Como uma outra pessoa pode me provar que ela existe realmente?”.

“Máquinas podem ter conhecimento?”.

“Você pode provar que a afirmação ‘A verdade é relativa’ é falsa? A verdade pode ser absoluta?”.

“A expressão ‘antes do Big Bang’ faz algum sentido, já que o Big Bang é o começo de tudo, inclusive do tempo?”.

“Pode haver um acontecimento que seja inteiramente aleatório?”.

“A ciência nos diz que o espaço é infinito e está sempre se expandindo. Mas, se é infinito, como pode se expandir? E dentro do que ele está se expandindo?”.

“Filósofos são mais bem-sucedidos em suas decisões pessoais do que a média das pessoas?”.

“Sempre me afligiu a idéia de que a filosofia não é algo que tenha feito qualquer progresso real. Por que gastar tempo construindo teorias elaboradas que não são cientificamente provadas? Por que gastar tanto tempo refletindo sobre questões (1) cujo progresso é difícil de ser avaliado e (2) cujas idéias resultantes não mudam realmente o mundo de maneira significativa?”.

“Por que os filósofos não concordam? Nas ciências naturais você encontra discordâncias nas fronteiras de novas pesquisas, mas, depois de algum tempo, chega-se a um entendimento e as fronteiras avançam para novas áreas de investigação. Na filosofia, nada deixa de ser controverso. Como poderia identificar um avanço em filosofia?”.

Parte II: O que devo fazer?

“É moralmente errado lucrar com os erros e a estupidez de outras pessoas?”.

“O tolerante deve tolerar a intolerância?”.

“Uma boa ação pode compensar uma má ação, ou o valor moral de cada uma delas existe independentemente?”.

“Acredito ser importante preservar a biodiversidade, mas não consigo determinar por que isto é tão importante para mim, ou como é possível convencer outras pessoas de que isto é importante. A filosofia pode ajudar?”.

“De que maneira o fim pode chegar a justificar os meios?”

“O que justifica o fato de tantas pessoas – principalmente pessoas desprezíveis que não nos demonstram nenhum respeito – insistirem em seus ‘direitos humanos’? Devo respeitar o direito de tais pessoas?”.

“A qualidade de vida de alguém pode ser tão ruim a ponto de você ter justificativa para cuidar dessa pessoa, contra a vontade dela, para melhorá-la? A partir de qual estágio isso seria conveniente?”.

Parte III: O que eu posso esperar?

“Estou pensando em ter filhos, mas não consigo pensar em qualquer bom motivo para tê-los. Parece impossível ter obrigações com uma pessoa que não existe ainda. Será que há algum bom motivo para ter filhos que não seja egoísta?”.

“De acordo com Göethe, as únicas pessoas realmente felizes são aquelas que são como crianças. O que preencheria o requisito de ser como criança, e como isto tornaria alguém feliz?”.

“Por que as emoções são vistas de maneira negativa? Por que estar feliz não pode ser tão bom quanto estar triste?”.

“Deveríamos perder nossa fé em Deus devido a acontecimentos como o furacão Katrina?”.

“Deus poderia fazer uma pedra tão pesada que Ele próprio não conseguisse levantar? Se assim fosse, então Ele não é todo-poderoso. Mas se não pudesse fazer essa pedra, então também teremos que Ele não é todo-poderoso. De um jeito ou de outro, existe alguma coisa que Deus nã consegue fazer. Então, parece que Deus (ou qualquer coisa neste sentido) não poder ser onipotente”.

“A fé em uma coisa intangível é no fim das contas ilusória?”.

“Considerando que não há provas nem de uma coisa nem de outra, não é mais válido dizer: ‘Deus existe’ do que dizer ‘Deus não existe’? Ou a única afirmação válida é ‘Não sei se Deus existe’?”.

“Se, no fim das contas, não se pode saber qual é a vontade de Deus, então como podemos saber o que é moralmente certo?”.

“Se todas as vidas terminam em morte, então como a vida pode ter algum valor?”.

Parte IV: O que é o homem?

“Por que os vegetarianos propõem um conjunto de regras diferentes para os animais não-humanos? Afinal de contas, os seres humanos são animais também. Por que está certo um leão matar e comer um antílope enquanto para um ser humano isto não está certo? Algumas pessoas respondem que ‘Não precisamos de carne’, mas por que isso importa?”.

“Reconheço que Descartes é um dos mais importantes e influentes pensadores dos tempos modernos. Mas então por que le acreditava que animais não-humanos não são sensíveis, e portanto não podem sofrer ou sentir dor alguma? Como uma pessoa tão brilhante tem esse conceito equivocado de que os animais não-humanos não sofrem? Quando se faz uma vivissecção ou quando se causa um dano violento, a vidade é gritante! Estou chocado”.

“É possível provar que os cães sonham?”.

“Se eu pudesse fazer uma cópia perfeita de uma obra de arte famosa, ela seria tão valiosa quanto a original?”.

“Não existe arte ruim?”.

“A música é uma linguagem?”.

“Se houvesse uma teoria sobre tudo, ela não iria prever todas as ações e todos os comportamentos humanos? E, assim sendo, essa teoria não destruiria a possibilidade do livre-arbítrio?”.

“Um homem casado e uma mulher solteira estão prestes a ter um caso. A mulher solteira tem a responsabilidade de proteger os votos do casamento do homem, ou a responsabilidade é apenas dele? Na ausência de uma doutrina religiosa específica, como você formularia um princípio para ajudar a determinar onde a responsabilidae começa e onde ela acaba neste caso?”.

“Eu realmente amo minha esposa e certamente não quero magoá-la. Mas é moral enganá-la se estou 100% certo de que ela não vai saber (e, portanto, não será ferida)?”.

“É possível que pessoas mentalmente instáveis (meio loucas) sejam na verdade sãs e que nós sejamos os loucos?”.

“Ao sustentarmos o conceito de ‘raça’, tornamos o racismo possível?”.

“Por que devemos respeitar os mortos?”.

Existo, logo penso: filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o mais. Alexander George [et. al.]; tradução Bruno Casotti. – Rio de Janeiro: editora Objetiva. 2008. 276 p.
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Site da Editora Objetiva falando sobre o livro: http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/1737
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Em Portugal este livro foi traduzido como: O Que Diria Sócrates? Os filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto, org. de Alexander George
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Tradução de Cristina Carvalho
Revisão científica de Aires Almeida
Lisboa: Gradiva, Julho de 2008, 320 pp.
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Aqui neste site há uma pequena apresentação do livro e logo abaixo há um trecho do livro e no link a seguir há uma resenha crítica.
http://criticanarede.com/fa_18a.html (Apresentação do livro).
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http://criticanarede.com/socratessay.html (Resenha crítica de Aires de Almeida).
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What Would Socrates Say? Philosophers Answer Your Questions About Love, Nothingness, And Everything Else, org. de Alexander George. Nova Iorque: Clarkson Potter Publishers, 2007, 256 pp.