O Café dos Filósofos Mortos, diálogo entre Nora K, 11 anos, e Vittorio Hösle

Nota IntrodutóriaImagem

             As cartas publicadas neste livro têm os seguintes antecedentes. Fazia tempo que Nora se interessava por questões filosóficas e, quando fez onze anos, ganhou de presente o livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Ela o leu com grande interesse e sentiu-se estimulada a fazer-me perguntas por ocasião de minhas visitas a sua casa, pois sabia que eu lecionava filosofia. Assim, antes de iniciarmos nossa correspondência, ela quis saber se a ideia platônica do dinossauro ainda existiria após a morte do último representante da espécie. Essa é uma questão que pode ser perfeitamente classificada como original. Tentei explicar-lhe por que a ideia dos dinossauros não fora afetada pela morte do último desses animais. Ficou satisfeita com a explicação, e daí surgiram os apelidos de “Dino-Nora” e “Ideia dos Dinossauros”. Como reconhecimento da importância da sua pergunta, dei-lhe de Natal um dinossauro de marzipã. Nossa troca de cartas começa com seu cartão de agradecimento.

 

V.H.Imagem

 

Querido Vittorio,

 

             Muito, mas muito obrigada mesmo pelo dinossauro de marzipã!!! Gostei tanto dele, que o coloquei em cima da minha mesinha-de-cabeceira. Assim posso vê-lo a qualquer momento.

             Até agora só consegui ler as primeira páginas do seu livro mas, logo que terminar o outro que estou lendo, vou começar o seu.

             O livro sobre filosofia trata agora da Idade Média. É muito instigante. Ah, sim, nas aulas de história estamos estudando a imagem da mulher na Grécia Antiga. Fiquei indignada com a opinião de Aristóteles.

 

Sua Nora!

 

Essen, 27 de janeiro de 1994

 

             Querida Nora,

 

             Muito obrigado pelo bonito cartão que você me mandou. Fiquei muito contente ao recebê-lo. Mas que menina controlada você é, que ainda não engoliu o dinossauro de marzipã! Afinal, ele não passa de um símile, de uma cópia; não é eterno como uma ideia…

             Sua crítica a Aristóteles mexeu profundamente comigo, pois, como aprecio muito vocês dois, meus sentimentos ficaram confusos. Assim caminhava eu ontem, tarde da noite, pelo bairro de Rüttenscheid quando, em uma rua afastada que nunca tinha visto antes, deparei com um Café. Chamava-se “Café dos filósofos mortos, mas sempre jovens”, e, como gostei do nome, acabei entrando. Pensava que devia estar vazio, pois quem é que frequentaria um Café com um nome esquisito daqueles? Qual não foi a minha surpresa ao ver que estava praticamente cheio – aliás, a clientela era formada quase (mas não totalmente) só por homens.

             Sentei-me a uma mesinha e acenei com a cabeça para o senhor idoso que estava lá sozinho. (Não havia mesas livres.) Devo confessar que tanto ele quanto os outros me eram vagamente conhecidos, mas não conseguia identificá-los. O homem sentado à minha frente tinha uma barba curta, lábios finos e firmes e uma testa proeminente. Estava elegantemente vestido, mas seu olhar parecia não corresponder à nossa época. Fixei-me nele com algum embaraço, até que finalmente me vi obrigado a perguntar:

             – Perdoe-me, tenho certeza de já tê-lo encontrado em outra oportunidade, mas não consigo me lembrar do seu distinto nome. Chamo-me Hösle, muito prazer.

             – Prazer, Aristóteles – respondeu distraído.

             Você não vai se surpreender tanto quanto eu. Nunca teria acredito em uma coisa daquelas, se já não estivesse habituado com a ideia de que na filosofia tudo é possível. E, de fato, passei a reconhecer outras pessoas. Junto da mesa de bilhar, um homem baixinho, que evidentemente era Kant, conversava acerca do argumento ontológico com um distinto bispo, a quem tratava constantemente como “caro Anselmo”. Ao lado, usando uma cartola, um jovem tímido com um quê de dândi conversava com um senhor elegante, de olhar absorto, tentando explicar-lhe que a verdade residia na subjetividade e que o salto para a fé passava necessariamente pela razão.

             Claro que estava particularmente feliz por sentar-me juntamente com Aristóteles.

             – Olhe só – disse eu – já li muito do que o senhor escreveu e acho suas obras fantásticas, mas uma jovem senhorita está indignada com a imagem que o senhor tem das mulheres.

             – O senhor por acaso não está se referindo à Nora dos dinossauros?

             – Sim, o senhor também a conhece?!

             – Bem, pessoalmente não. Mas bons argumentos são muito bem cotados neste Café, chegando-nos sempre muito depressa. Eu mesmo ainda estava convencido da constância das espécies; mas como a extinção de espécies me proporciona um bom argumento contra meu mestre Platão, reconciliei-me com Darwin. Portanto, Nora suscitou uma nova coalizão no nosso Café.

             – Mas isso o deixa ainda mais na obrigação de desculpar-se com Nora por sua opinião sobre as mulheres – observei.

             – Certo, certo – disse ele –, com prazer. Faço-o agora mesmo. Mas, por favor, diga-lhe três coisas. Primeiro, nunca neguei (como alguns afirmam) que as mulheres não tivessem alma – pois se até às plantas atribuo uma alma! Em segundo lugar, somos todos filhos da nossa época – o que disse sobre a escravidão me é ainda mais constrangedor. Mas quando se cresce em uma sociedade em que a escravidão é algo trivial, e é natural que as mulheres não estudem ou, muito menos, que se ocupem com a ideia do dinossauro, então tais opiniões não são de admirar. E, finalmente, quero chamar sua atenção e a da Dino-Nora para o fato de vocês também terem opiniões que daqui a alguns séculos vão deixá-los corados de vergonha. Portanto, sejam condescendentes com um velho grego!

             – Mas claro que sim! – respondi eu. – Nós veneramos ao senhor e ao seu mestre Platão. – Percebi, infelizmente tarde demais, que dizendo isso o tinha melindrado um pouco.

             – Com a sua licença, vou já escrever à Nora contando nossa conversa.

             A caminho da saída do Café, deparei ainda com um homem que acenou discretamente na minha direção, dizendo:

             – Aliás, Nora é muito crítica e não vai acreditar no que o senhor pretende escrever-lhe. Então pergunte a ela simplesmente: se por acaso pensa que eu apenas sonhei, será que você é mesmo capaz de distinguir entre o sonho e a realidade? E se ela disser que Deus não é um enganador, responda-lhe que, às vezes, Ele nos engana para a verdade.

             – Muito brigado, René, dessa forma vou concluir minha carta.

             Dito e feito – e, por hoje, fiquei com o abraço

do seu Vittorio.

 

Em breve, aqui no blog, a carta resposta de Nora.

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