O método socrático

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Como adquirir autonomia de raciocínio?

O filósofo não apenas nos ajuda a compreender que os outros podem estar errados como também nos oferece um método simples através do qual podemos, por nós mesmos, determinar o que é certo. Poucos filósofos atingiram um entendimento mínimo do que é necessário para se dar início a uma vida pensante. Não precisamos de anos de educação formal e uma existência de ócio. Qualquer um que tenha uma mente bem-ordenada e dotada de curiosidade, que procure analisar uma crença consagrada pelo senso comum pode travar um diálogo com um amigo que acabou de encontrar nas ruas da cidade e, ao aplicar um método socrático, conseguir formar uma ou duas opiniões bem-fundamentadas em menos de meia hora.

O método de Sócrates de examinar o senso comum pode ser visto tanto nos primeiros diálogos de Platão quanto nos chamados diálogos de maturidade e, por seguir passos coerentes, pode sem injustiça ser apresentado na linguagem de um livro de receitas ou de um manual e aplicado a qualquer conceito que alguém foi solicitado a aceitar ou se sente inclinado a contestar. A correção de uma afirmativa não pode, segundo sugere o método, ser determinada pelo fato de ser ou não aceita por uma maioria ou pelo fato de ser seguida há muito tempo por pessoas importantes. Uma afirmativa correta é aquela que não dá margem a ser racionalmente contestada. Uma afirmativa é verdadeira se não poder ser invalidada. Se puder, não importa o número ou a posição social das pessoas que nela acreditam, ela deve ser falsa e nós estamos certos em duvidar dela.

O método socrático de raciocínio

a. Selecione uma afirmativa que todos, sem pestanejar, consideram incontestável.

exemplo:

Agir com bravura pressupõe não recuar durante uma batalha.

ou

Ser virtuoso requer dinheiro.

b. Imagine por alguns instantes que, apesar da confiança demonstrada pela pessoa que a propôs, a afirmativa seja falsa. Saia em busca de situações ou contextos em que a afirmativa não seria verdadeira.

exemplo:

Seria possível ser corajoso e, ainda assim, bater em retirada?
Seria possível não abandonar o campo de batalha e, ainda assim, não ser corajoso?

ou

Seria possível ter dinheiro e não ser virtuoso?
Seria possível não ter dinheiro e ser virtuoso?

c. Se uma exceção for encontrada, a definição deve ser falsa ou, pelo menos, imprecisa.

exemplo:

É possível ser corajoso e bater em retirada.
É possível permanecer na batalha e, ainda assim, não ser corajoso.

ou

É possível ter dinheiro e ser um vigarista.
É possível ser pobre e ser virtuoso.

d. A afirmativa inicial deve ser submetida a nuanças para que a exceção seja levada em conta.

exemplo:

Agir corajosamente pode envolver tanto o ato de recuar como o de avançar no campo de batalha.

ou

As pessoas que têm dinheiro podem ser descritos como virtuosas somente se o tiverem adquirido de uma maneira virtuosa, e algumas pessoas sem dinheiro podem ser virtuosas quando tiverem atravessado situações em que era impossível ser virtuoso e ganhar dinheiro.

e. Se, em análises subsequentes, encontrarem-se exceções para as afirmativas que foram aperfeiçoadas, o processo deve ser repetido. A verdade, seja ela ou não acessível ao ser humano, está em uma afirmativa que parece impossível de ser refutada. É por intermédio do ato de se descobrir o que alguma coisa não é que se chega mais perto do entendimento do que essa coisa é.

f. O produto do pensamento é, não importa o que Aristófanes tenha insinuado, superior ao produto da intuição.

Naturalmente, é possível atingirem-se verdades sem que seja necessário filosofar. Mesmo sem recorrer ao método socrático, podemos perceber que as pessoas que não têm dinheiro podem ser chamadas de virtuosas se tiverem sobrevivido a situações em que era impossível ser virtuoso e ganhar dinheiro, ou que agir corajosamente pode envolver uma retirada em batalhas. Mas corremos o risco de não saber como responder às pessoas que não concordam conosco, a menos que tenhamos primeiro examinado as objeções ao nosso ponto de vista de uma maneira lógica. Podemos ser silenciados por indivíduos de personalidade marcante que insistam em afirmar que o dinheiro é essencial à virtude ou que apenas os efeminados recuam durante uma batalha. Se nos faltarem contra-argumentos para nos dar força (a Batalha de Plateia e o enriquecimento em uma sociedade corrupta), teremos de propor débil e impertinentemente que julgamos estar com razão, sem, no entanto, sermos capazes de explicar os motivos.

Sócrates descreveu o ato de se ater a uma crença correta sem que se tenha consciência de como reagir racionalmente a objeções como opinião verdadeira, e a comparou de maneira desfavorável a conhecimento, que envolvia compreensão não apenas dos motivos pelos quais algo era verdadeiro, mas também por que suas opções eram falsas. Ela comparou as duas versões da verdade a belas obras do grande escultor Dédalo. Uma verdade produzida pela intuição era como uma estátua assentada, sem qualquer sustentação, sobre um pedestal colocado ao ar livre.

Um vento forte poderia, a qualquer instante, derrubá-la. Mas uma verdade sustentada por premissas e por uma consciência de contra-argumentos era como uma estátua fixada ao solo por cabos.

O método socrático de raciocínio nos prometia uma maneira de desenvolver opiniões nas quais poderíamos, mesmo diante de uma tempestade, sentir uma confiança legítima.

Clique na imagem abaixo e assista:

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