Livro: Opinião, Conhecimento e Verdade; de Oscar Brenifer

Proposta

Nossa Escolha: A Prática FilosóficaImagem

                 Este guia de iniciação ao filosofar dirige-se mais especificamente aos alunos do Ensino Médio. Sua intenção é ser, antes de tudo, uma prática filosófica, ou seja, um exercício de questionamento, uma construção visível do pensamento. Partimos do princípio de que filosofar é um ato extremamente natural, ainda que numerosos obstáculos dificultem esse processo – hábitos já bastante consolidados, que induzem a uma certa complacência e nos fazem tomar por adquiridas ou certas algumas opiniões colhidas aqui e ali: na televisão, em casa, quiçá em um curso. Pensamentos tão prontos, que você não pensaria em questionar, a não ser por breves instantes.

                Propomos, então, um diálogo, uma troca de ideias entre Vítor e sua amiga filósofa, diálogo concebido como o do aluno consigo mesmo. É a ferramenta com a qual você, junto com Vítor, poderá começar a filosofar. Vítor deve aprender a se questionar para pensar por si mesmo; deve introduzir em suas práticas o hábito de por as ideias à prova, aprender a formular questões, tirar proveito de suas intuições, mas também de seus erros. Suas tentativas e erros o levarão a compreender o que significa o desenvolvimento filosófico.

                Comentários inseridos nos diálogos explicitam os problemas típicos da aprendizagem do pensamento filosófico e valorizam as diversas soluções que aparecem. Citações de autores sustentam ou contradizem as propostas enunciadas. Algumas grandes questões acerca do tema a ser tratado – as problemáticas -, enumeradas na margem ao longo do diálogo, ajudarão você a trabalhar as ideias. Uma seleção de textos clássicos, cada um deles seguido de três questões de compreensão, permitirá que você ajuste e aprofunde a reflexão.

                Nosso objetivo é que o aprendiz comece a elaborar um pensamento filosófico, confrontando-se consigo mesmo e com os outros.

Parte 1

Diálogos

Vítor: aluno do último ano do Ensino MédioImagem

Heloísa: uma amiga filósofa

Discussão sobre a opinião, o conhecimento e a verdade.

Difícil Verdade

VÍTOR – Existe uma coisa na filosofia que eu não entendo.

HELOÍSA – O quê?

VÍTOR – Cada um pode pensar e falar o que quiser, da maneira que quiser. Cada um tem uma opinião.

→Citações 1 E 2

A relação entre “filosofia” e “cada um tem suas opiniões” não está explícita. Não se entende o que há de incompreensível na filosofia.

HELOÍSA – É isso?

VÍTOR – É.

HELOÍSA – Eu estou achando você um pouco mal humorado hoje.

VÍTOR – Eu também. Eu digo qualquer coisa, e você imediatamente quer me fazer dizer o que eu não disse.

A dificuldade de assumir e explicar suas próprias ideias acaba inibindo as indagações e impedindo a reflexão.

HELOÍSA – E o que eu quis fazer você dizer?

VÍTOR – O pior é que eu não sei.

HELOÍSA – Então, como você pode me acusar assim?

VÍTOR – Eu te conheço o suficiente para desconfiar de você.

HELOÍSA – Eu achei que fôssemos amigos.

VÍTOR – Pode ser, mas, às vezes, assim que a gente começa a discutir, você fica meio esquisita.

HELOÍSA – você me acha esquisita?

VÍTOR – Não. Não esquisita, mas irritante. Como agora, por exemplo.

HELOÍSA – O que eu fiz?

VÍTOR – Você não para de me fazer perguntas! Como se você fosse da polícia.

HELOÍSA – Você não gosta de perguntas?

VÍTOR – Depende da pergunta.

Se Algumas questões são preferíveis a outras, é necessário estabelecer um modo de discriminá-las.

HELOÍSA – Você poderia ser mais preciso?

VÍTOR – Olha aí, justamente esse tipo de questão: “você pode ser mais preciso?”.

HELOÍSA – O que tem de errado nesse tipo de questão?

VÍTOR – Você finge que não entende, e ainda quer que eu me explique.

HELOÍSA – Mas, esqueça um pouco a sua irritação e me diga: para que pode servir “explicar” ?

VÍTOR – Ah, isso eu posso responder! Explicamos para saber melhor o que dizemos e o que queremos dizer, para sabermos o que temos em mente. Precisamos ter consciência das palavras que utilizamos, senão o que dizemos não tem o menor sentido. →Citações 3 E 4.

O termo “explicar” ficou mais claro. Ele significa tornar consciente a intenção e o conteúdo de uma ideia.

A expressão “estar consciente” permite distinguir uma simples palavra de uma palavra consciente de seu próprio conteúdo.

HELOÍSA – Você acha que isso pode ser útil?

VÍTOR – Nem sempre temos vontade de saber sobre as coisas.

A pergunta é sobre a “utilidade”, a resposta é sobre a “vontade”. Esses dois conceitos podem ter relação um com o outro, mas não podemos substituir um pelo outro sem nenhuma justificativa.

HELOÍSA – Você se lembra da minha questão?

VÍTOR – Lá vem você de novo?

HELOÍSA – Lembra-se?

VÍTOR – Não, mas não acho que isso faça diferença. No fim das contas, cada um diz o que quer.

O questionamento e as exigências de rigor são rejeitadas em favor de uma espontaneidade que deixa pouco espaço para aprofundar e refletir.

HELOÍSA – Você acha mesmo que podemos dialogar se cada um diz somente o que quer, o que passa pela cabeça, sem responder ao outro?

VÍTOR – Tem muita gente que discute assim.

Inovar uma quantidade de pessoas, mesmo que seja grande, não é suficiente para justificar o que quer que seja.

HELOÍSA – Essa resposta é suficiente? Você acha que…

VÍTOR – Tá bom, tá bom. Além do quê, eu agora me lembrei da questão. Você me perguntou se seria útil explicar o que dizemos e o que desejamos exprimir.

HELOÍSA – E o que você acha? Arriscaria alguma resposta?

VÍTOR – Sim: de certo modo, explicar pode nos ajudar a viver. Permite que nos compreendamos melhor. O conhecimento, a cultura, tudo isso favorece a vida em sociedade. Era isso o que você queria ouvir? →Citações 8 e 9

Depois de ter mostrado a importância da “explicação”, um contra-argumento aponta para os limites dessa importância.

HELOÍSA – E o que mais?

VÍTOR – Acabei de dizer. As suas questões, por exemplo, me deixam um pouco incomodado.

O exemplo das “questões que causam incômodos” não é suficiente. Um exemplo deve sempre ser analisado. Além disso, a relação entre o exemplo e a ideia de que há algumas verdades que não devem ser ditas não é evidente.

HELOÍSA – Será que é porque faço afirmações quando pergunto?

VÍTOR – Pode ser, mas você também quer me obrigar a dizer as coisas.

HELOÍSA – Mas, pelo que sei, você adora falar.

VÍTOR – Pode ser…

HELOÍSA – Você também acha que nem toda verdade deve ser ouvida?

VÍTOR – Há circunstâncias em que não queremos ouvir o que poderíamos ouvir.

HELOÍSA – Você pode me dar um exemplo?

VÍTOR – Quando estamos doentes, por exemplo.

HELOÍSA – Como assim?

VÍTOR – Quando estamos doentes, ficamos frágeis por causa do sofrimento. Ficamos mais irritados e suscetíveis. Não queremos ouvir coisas que nos desagradam, mesmo que sejam verdades. Não estamos num estado bom para compreendê-las. É por isso que temos que poupar os doentes. Pode ser até necessário mentir para eles. → Citações 9 e 10

O exemplo da doença, por meio das ideias de “fragilidade” e “sofrimento”, nos mostra por que em algumas circunstâncias não gostaríamos de ouvir certas verdades e justifica, portanto, a mentira.

HELOÍSA – Você se considera um doente?

VÍTOR – É claro que não. Esse só foi um exemplo.

HELOÍSA – Sim, mas um exemplo de quê?

VÍTOR – De que nem toda verdade deve ser dita.

HELOÍSA –Para você também não?

VÍTOR – Nem para mim e nem para os outros. A não ser, talvez, para você, que se acha acima de todo mundo…

HELOÍSA – Mas em que sentido esse exemplo se aplica a você?

VÍTOR – Agora que você me fez pensar nisso, talvez todos nós sejamos doentes.

HELOÍSA – Como assim?

VÍTOR – Todos nós sofremos, uns mais, outros menos, como consequência de nossas vivências. Se refletirmos um pouco, perceberemos que todos nós somos frágeis. A única diferença é em relação ao grau do sofrimento e da fragilidade. É por isso que existem palavras que não gostamos de ouvir ou até que não podemos suportar. Mesmo que elas sejam verdadeiras! Preferimos não ouvir o que os outros nos dizem. Acreditamos no que nos convém, mentimos a nós mesmos. Isso diminui nossas dores, mas, evidentemente, limita muito o que podemos conhecer. → Citações 11 E 12

A fragilidade e o sofrimento, estendidos a todos, nos mostra, finalmente, de maneira mais ampla, por que nem toda verdade deve ser dita, com consequências sobre o conhecimento: conhecemos somente o que suportamos conhecer.

HELOÍSA – Eu já disse alguma coisa que desagradou você?

VÍTOR – Não, mas você me irrita com as suas perguntas, o que é bem diferente.

HELOÍSA – Então não tem nada a ver com a sua ideia de doença, sofrimento e fragilidade?

VÍTOR – Não.

HELOÍSA – Eu já disse a você alguma coisa?

VÍTOR – Pior que isso. Você espera que eu mesmo o diga.

HELOÍSA – Será que o problema está no “dizer” ?

VÍTOR – Não, o problema já está no ato de pensar.

HELOÍSA – Então, seria melhor, por vezes, não pensar?

VÍTOR – No fundo eu acho que sim. Alguns pensamentos nos fazem muito mal. Sem dúvida porque eles vão de encontro com nossas opiniões e crenças, ou mesmo porque eles nos fazem duvidar de nós mesmos. É! É por isso que eu nem sempre aprecio as perguntas: elas semeiam a dúvida no meu espírito, e eu não sei mais onde estou. Fico com a impressão de que não estou entendendo mais nada. →Citações 13 E 14

O conceito de “dúvida”, com o poder de desestabilizar, nos ajuda a compreender por que certas perguntas nos deixam tão confusos.

HELOÍSA – Essa constatação incomoda você?

VÍTOR – Engraçadinha… Você sabe que sim.

HELOÍSA – O que desagrada você?

VÍTOR – Parece que eu não gosto de me questionar. Mas isso não é verdade.

HELOÍSA – Olha só!

VÍTOR – Eu só não gosto das perguntas que me fazem sofrer, aquelas que são difíceis de responder.

HELOÍSA – Elas levam menos à verdade do que as questões mais fáceis?

VÍTOR – Vou responder uma coisa que é difícil para mim, mas que sou obrigado a reconhecer. As perguntas que mais nos incomodam são, sem dúvida, as mais verdadeiras.

HELOÍSA – Por quê?

VÍTOR – Porque elas nos tocam mais profundamente, é por isso que nos machucam.

HELOÍSA – A que conclusão, então, você chegou?

VÍTOR – Que as palavras só são palavras, e que as ideias só são ideias. Se a verdade nos afeta tanto é porque faz parte de nós. Ela pode nos ajudar a entender muitas coisas e nos ajudar a viver, mas pode também nos magoar e nos destruir. Ela é nossa amiga e nossa inimiga. Às vezes, ficamos bem sem a verdade, apesar de, no fundo, precisarmos dela. →Citações 15 E 16

O estatuto ambivalente da verdade foi articulado: por vezes “amiga”, outras vezes “inimiga”, ela nos “ajuda”, mas também nos “destrói”.

HELOÍSA – Você acha que temos acesso à verdade?

VÍTOR – Talvez não, e felizmente! Seria pavoroso. Temos acesso a pequenas verdades, mas nunca à grande verdade, aquela com um V maiúsculo. Podemos mesmo é nos colocar todo tipo de pergunta. Talvez essa seja a verdade: fazer perguntas. Mesmo quando pensamos já saber, ou quando não queremos saber.

Os ecos dos filósofos

→ O NÚMERO DAS CITAÇÕES REMETE AO DIÁLOGO

1 – “A todo argumento podemos opor um outro.” Pirro, in Diógenes Laércio: Vida e obra dos filósofos ilustres, século III d.C.

2 – “Sócrates – Ninguém acharia que o outro tem mais razão, se achasse que a sua própria opinião fosse a verdade.” Platão, Crátilo, século IV a.C.

3 – “A unidade da consciência é o que constitui a relação das representações com um objeto, isto é, seu valor objetivo; é ele que produz conhecimento […].” Kant, Crítica da razão pura, 1781.

4 – “Nossa sabedoria consiste, em grande parte, em crer que sabemos e em crer que os outros sabem.” Valéry, O homem e a concha, 1937.

5 – “[…] A linguagem é a consciência real, prática […] e, como a consciência, a linguagem aparece com a necessidade de comércio outros homens.” Marx e Engels, Ideologia alemã, 1846.

6 – “A inteligência, o discernimento, o julgamento e todos os talentos do espírito […] são, sem dúvida, muito bons e desejáveis; mas esses dons naturais também podem ser extremamente ruins e perigosos […].” Kant, Fundamentos da metafísica dos costumes, 1785.

7 – “Não se deve dizer a verdade sobre tudo, ‘toda a verdade’, não importa quando, como um selvagem.” Jankelévitch, A ironia ou a boa consciência, 1936.

8 – “Sócrates – Se cabe a alguém mentir, é aos chefes das cidades, a fim de, visando o interesse da cidade, enganar os inimigos ou os cidadãos; a todas as outras pessoas a mentira é proibida […].” Platão, A República, livro IV, século IV a.C.

9 – “Nenhum homem tem direito à verdade que prejudica o outro.” Constant, A França do ano de 1797, 1797.

10 – “Aquele que mente, por mais bem intencionado que seja, deve responder pelas consequências de sua mentira […].” Kant, Sobre um suposto direito de mentir à humanidade, 1797.

11 – “[…] A força de um espírito será medida conforme a dose de verdade que ele será capaz de suportar […].” Nietzsche, Além do bem e do mal, 1886.

12 – “É impossível ignorá-la [a verdade].” Descartes, Carta ao Padre Mersenne de 16 de outubro de 1639.

13 – “[…] Acontece com frequência, mesmo que tenhamos razão, de nos deixarmos confundir ou refutar por uma argumentação especiosa ou inversa.” Schopenhauer, A arte de ter sempre razão, 1864 (póstumo).

14 – “[…] Um pensamento sobrevém quando ‘ele’ quer, e não quando ‘eu’ quero.” Nietzsche, Além do bem e do mal, 1886.

15 – “A verdade é como uma luz, mas uma luz formidável: é por isso que olhamos tudo ao redor piscando os olhos, achando que podemos nos cegar.” Goethe, Pensamentos, 1815-1832.

16 – “Também a filosofia só chega a verdades abstratas, que não comprometem ninguém e não perturbam.” Deleuze, Proust e os signos, 1964.

Abaixo dois vídeos, duas aulas com o prof. Oscar Brenifer em escolas do Peru, na capital Lima.

oscar brenifer II

oscar brenifer

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