Livro: Filosofia explicada à minha filha, escrito por Roger-Pol Droit

Esses dias empolgado com um livro que adquiri recentemente resolvi digitar o primeiro capítulo para tê-lo em formato de texto no computador. É um texto tão curioso que resolvi postá-lo aqui no blog e compartilhá-lo, porque espero que sirva de estímulo para as pessoas, alunos ou não, se interessarem pela filosofia. Boa leitura! É um diálogo entre um pai e uma filha sobre a filosofia. Será que você irá se identificar com as perguntas inteligentes da menina de 16 anos? Acredito, sem dúvida, que sim! Ah, sim, sem esquecer: o livro foi editado pela Martins Fontes. Quem quiser adquirir: http://bit.ly/aaBtXd (este site compara o preço do livro nas principais lojas online e busca o mais em conta).

1. Procurar idéias verdadeiras

– Então, o que é a filosofia?

– Nós vamos procurar. E tomara que encontremos. Mas não espere uma resposta imediata. Não é algo que se explique numa frase.

– Tente!

– Não, não adiantaria nada. Num dicionário, por exemplo, você leria que a palavra “filosofia” pode significar, em grego antigo, “amor à sabedoria”. Você provavelmente vai pensar que deve ser algo muito chato, porque “sabedoria” lembra coisa de gente mais velha, séria. Portanto, você não terá avançado muito, pois ainda será preciso se perguntar o que chamamos de “sabedoria”, no que ela consiste? Terá aprendido o que a palavra “filosofia” quer dizer, mas continuará sem saber o que a filosofia realmente é.

– Se me dizem o sentido da palavra, é lógico que eu sei o que é!

– De jeito nenhum. Quando você aprende que a palavra “Japão” é o nome de um país da Ásia, nem por isso você conhece o Japão. Ou então, imagine uma criança que não sabe o que quer dizer a palavra “matemática”. Você lhe dá uma definição: “uma ciência dos números e das figuras”. Agora, a criança conhece o sentido da palavra. Pode até usá-la. Mas você diria que ela sabe o que é matemática?

– Claro que não.

– Está vendo? A palavra não basta! Conhecer algo não é apenas saber uma palavra, é também, necessariamente, ter uma experiência. Você conhece o que chamam de “matemática” quando começa a fazer contas e demonstrações, fazer aritmética, álgebra ou geometria. E o Japão, você vai conhecer lendo livros, vendo exposições e filmes e, é claro, indo até lá!

– Então, dá para dizer que para conhecer a filosofia é preciso ir até ela?

– Exatamente! Você entendeu muito bem. É preciso ir até a filosofia. No entanto, não é um país, um lugar para onde podemos viajar. É antes, como a matemática, uma atividade.

– Certo, mas então o que a gente faz quando faz filosofia?

– Tentamos saber a verdade. Pronto, este é um bom ponto de partida: a filosofia é uma atividade que procura a verdade. Mas isso não basta. Um delegado também busca a verdade. Numa investigação, quando se trata de um assassinato, ele tenta saber quem é o assassino. Para isso, como você sabe, ele vai examinar como cada suspeito empregou seu tempo, comparar todas as versões, confrontar depoimentos… e refletir! Não vai acreditar na palavra de ninguém e vai colocar em dúvida, sistematicamente, tudo que lhe contarem.

Os filósofos fazem algo parecido. Para procurar a verdade, não hesitam em examinar suas convicções e suas crenças. Podem até considerar suspeitas suas próprias idéias. Mas não são delegados de polícia! Há muita gente diferente que se dedica a procurar coisas verdadeiras. Além dos investigadores, quem você colocaria entre os buscadores de verdades?

– Não sei… Talvez os historiadores. Eles querem descobrir a verdade sobre os acontecimentos passados.

– É, pode ser, é uma possibilidade. E os cientistas? Na sua opinião, devemos incluí-los entre os buscadores de verdades?

– É claro. Mas eles procuram a verdade sobre problemas de química, de física ou de biologia!

– Certo! Você já entendeu a conclusão que devemos tirar dos nossos exemplos: os delegados de polícia, os historiadores, os cientistas (e muitas outras pessoas também) têm em comum o fato de procurarem a verdade, mas em campos muito diferentes. Acho que para avançar nesta nossa investigação, sobre o que fazem os filósofos, temos um problema para resolver. Sabe qual é?

– Acho que vamos ter de descobrir em que campo os filósofos procuram a verdade.

– Ótimo! Bem, na sua opinião, qual é o campo em que os filósofos procuram a verdade? Ocupam-se dos criminosos, como os policiais? Das realidades da física ou da química, como os cientistas?

– Não! Acho que eles se dedicam à justiça, à liberdade, a coisas assim…

– Você está certa, mas temos de ser mais precisos. É verdade que houve filósofos que procuraram a verdade no campo da moral (saber o que é bom e o que é mau, definir o que é justo e o que não é) ou da política (os cidadãos e o poder, a organização das decisões). Mas estes não são os únicos campos. Quando descobrimos a filosofia, ficamos impressionados com a quantidade e a diversidade de temas. Os filósofos se interessam na verdade pela ciência, pela arte, pela lógica, pela psicologia, pela política, pela história… Mas, ainda assim, não são nem cientistas, nem artistas, nem lógicos, nem psicólogos, nem historiadores…

– Não estou entendendo mais nada. Eles se interessam por tudo e não são especialistas em nada?

– Mais um tempinho e acho que tudo isso pode ficar bem mais fácil de entender. Pense nos dados que temos, parece uma adivinha: o que podem fazer pessoas que procuram a verdade num campo (a matemática, a moral ou a arte) sem serem especialistas que trabalham nesse campo?

– O mistério continua… É muito estranho.

– Quem busca a verdade em matemática são, normalmente, os matemáticos. Em história, os historiadores. E assim por diante. Se os filósofos também procuram a verdade em todos esses campos, devem fazê-los de uma maneira especial, como se trabalhassem num campo que atravessa todos os outros. Estamos chegando à solução: é no campo das idéias que os filósofos procuram a verdade. Cada vez que você quer entender como um filósofo se situa num campo, pode começar por acrescentar “idéia de”… O filósofo não trata da justiça como um advogado ou um juiz. Trata da “idéia” de justiça. Não se interessa pelo poder do mesmo jeito que o político, tenta aprofundar a “idéia” de poder.

E as coisas funcionam assim em todos os campos. Em matemática, por exemplo, o filósofo vai tratar da idéia de prova, ou da idéia de demonstração, ou ainda da idéia de número. Em história, vai se interessar pela idéia de acontecimento ou de revolução, ou de violência, ou então pela idéia de paz. Em moral, vai se interessar pela idéia do bem e pela idéia do mal. Ou então pelas idéias de delito, de responsabilidade, de regra.

Agora já é possível você entender como, trabalhando nesse campo das idéias, que atravessa todos os outros campos, os filósofos podem lidar com muitas especialidades sem ser especialistas?

– Na verdade, são especialistas das idéias?

– Certo. Temos de acrescentar que essa busca da verdade no campo das idéias pode quase sempre adotar a forma de uma pergunta: “qual é verdadeiramente a idéia de…?”. No lugar das reticências, você pode pôr “liberdade”, “obra de arte”, “poder”,justiça”, “indivíduo”, “alma”, “homem”, “dignidade”… e dezenas de outras. Portanto, o que os filósofos procuram é a melhor definição possível de cada idéia. E, entre essas definições, procuram qual é a verdadeira.

– Então, para que servem concretamente suas investigações?

– Para viver, simplesmente para viver! As idéias não são um campo à parte, uma espécie de jardim que estaria ao lado da existência. De jeito nenhum! Na verdade, as idéias governam as ações, os jeitos de viver, os comportamentos.

Você não quer que eu acredite que os seres humanos precisam de filosofia para viver. Tem muita gente que vive sem ter a menor idéia do que os filósofos pensam. E isso não as impede de viver!

– Espere aí!… Se você quer dizer que se pode comer, dormir, crescer sem buscar a verdade nas idéias, é claro que tem razão. Não se pode viver sem beber, sem se alimentar, sem dormir, mas se pode perfeitamente manter o organismo vivo sem realmente refletir. A questão não é essa. É saber como viver melhor. De maneira mais humana, mais inteligente, mais intensa. E, para isso, não dá para escapar de um trabalho com as idéias.

Digo: um trabalho com as idéias, porque idéias, todo o mundo tem. Elas já existiam antes da filosofia. Não foi ela que as criou. A filosofia vai testá-las, colocá-las à prova, examiná-las, para ver quais são verdadeiras e quais são falsas.

– Não entendo por que isso é indispensável para viver!

– Então, escute esta história. É uma história bem antiga que um filósofo chamado Sócrates contava muito tempo atrás. Algumas crianças querem escolher o que vão comer. Se forem à padaria ou à confeitaria, a idéia que terão é de que o que é bom para elas são os bolos e os bombons. Contudo, esses doces na verdade podem estragar seus dentes, fazê-las engordar e até, um dia, torná-las obesas. Essas crianças poderiam adoecer por causa da idéia falsa que têm do “bom”: confundem o que é bom de gosto, agradável de comer, com o que é bom para a saúde.

Ao contrário, se forem ao médico, eles lhes dirá a verdade: “O que é bom para vocês, para a sua saúde, para o seu equilíbrio, é uma alimentação variada, leite, frutas, peixe, legumes e… muito pouco (ou nenhum) bolo e muito pouco (ou nenhum) bombom.” O que essas crianças vão pensar do médico?

– Vão pensar que ele está enganado, e que elas sabem melhor que ele o que é bom para elas…

– É, dirão até que esse homem é mau, que quer o mal delas, que tenta impedi-las de ser felizes. Ou que ele não entende nada do que é bom para elas. Ou, ainda, que ele está enganado e não sabe nada sobre a verdade.

Então, de duas, uma: ou as crianças continuam na ilusão, evidentemente agradável, de que o melhor para elas é viver de bombons e bolos, e essa idéia pode lhes causar uma indigestão, ou então descobrem que o médico diz a verdade, mesmo que essa verdade lhes desagrade, e essa mudança de idéia vai ajudá-las a ter uma saúde boa.

É isso… as idéias são coisas que podem fazer você ficar doente ou saudável! Entende agora por que elas são tão importantes para viver?

Tenho certeza de que você inventou uma história sob medida… para se ajustar ao seu argumento.

– Não inventei nada. A história das crianças que preferem o padeiro ao médico, repito, era Sócrates, um dos primeiros filósofos, que a contava em Atenas, faz… 2500 anos! Você acha que esse exemplo é apenas um caso particular e ainda não está convencida de que as idéias são sempre importantes para a vida. Então vejamos a situação de outro ângulo. Será que a idéia que temos de justiça tem alguma importância para a maneira como vivemos?

Claro que tem!

– E as idéias que temos da liberdade, ou da morte, ou da igualdade, ou da felicidade, por exemplo, elas desempenham algum papel na existência?

Certo, entendi. Existem idéias que governam nossa vida…

– Portanto, é muito importante para a nossa vida saber quais as idéias verdadeiras e quais as falsas. Imagine alguém que tem uma idéia falsa da felicidade ou da liberdade. Ele quer ser feliz e livre, mas vai se enganar de caminho, se perder e sem dúvida fazer muito esforço… para nada! Acreditará que sua idéia é a certa, mas se ela for falsa é muito provável que ele fracasse e que sua vida não dê certo.

Mas, se é uma idéia falsa, por que ele acha que é verdadeira?

– Boa pergunta! A resposta é muito simples: acreditamos que uma idéia falsa é verdadeira enquanto não a examinamos, olhamos de perto. E isso está sempre acontecendo. É até a situação mais comum e mais banal. Acho que uma coisa é verdadeira porque sempre ouvi dizer, desde pequeno todos repetiam a mesma coisa. Quase todas as idéias que temos na cabeça vieram de fora. Entraram na nossa mente sem sabermos realmente como. Vêm da nossa família, do nosso meio, dos nossos amigos. Em geral, não fomos nós que fabricamos nossas idéias! Assim como também não inventamos as palavras com as quais falamos.

Quase sempre, essas idéias se instalaram em nós, tornaram-se “nossas” idéias, sem que as tenhamos de fato escolhido. Raramente dissemos “sim” ou “não”. Não procuramos realmente saber se são verdadeiras ou falsas.

Quer dizer que a gente poderia ter na cabeça um monte de idéias falsas sem saber?

– Claro! Pior ainda: um monte de coisas falsas que estamos convictos de julgar verdadeiras com razão!

Qual é a solução? Como é que a gente se cura?

– Bem… não nos curamos, mas fazemos filosofia! Provavelmente é a única maneira de obter o resultado de que estamos falando: testar nossas idéias, colocá-las à prova para selecioná-las.

Aliás, você deve ter percebido que obtivemos um novo resultado: a filosofia é também uma atividade crítica. Não se contenta em procurar a verdade no campo das idéias. Para atingir esse objetivo, também se dedica a expulsar as idéias falsas. Procura detectá-las para que não causem prejuízos.

Podemos dizer isso de outra forma: idéias todo o mundo tem. Cada um tem suas opiniões, suas crenças, suas convicções. Elas podem dizer respeito à política, à religião, à moral, à justiça, à arte… Esse conjunto de opiniões e crenças que cada um de nós possui não é de fato filosofia. A filosofia começa, como atividade de reflexão, quando nos perguntamos: “De todos esses pensamentos que tenho na cabeça, quais são verdadeiros? Quero saber, vou tentar examiná-los!” Fazer filosofia não é simplesmente pensar, ter idéias. É começar a observar suas próprias idéias, como se nós as olhássemos de fora, como se quiséssemos fazer uma arrumação na cabeça.

Portanto, é uma atividade específica. Repito, ela não consiste apenas no fato de pensar. Pode-se pensar de muitos jeitos diferentes. Pensar no que faremos amanhã, ou no que fizemos ontem. Pensar nos amigos ou nas férias, pensar nos estudos, no trabalho… Todos esses pensamentos não são filosofia!

Ou seja, a filosofia são pensamentos especiais…

– Isso mesmo! Acrescento que eles não são especiais por causa do seu conteúdo, mas por causa do seu estilo.

Como assim?

– Na verdade, o que torna esses pensamentos “especiais” não são os temas dos quais eles tratam (por exemplo, a liberdade, a justiça, a morte, Deus etc.). Sobre todos esses temas posso ter pensamentos que não serão necessariamente filosóficos. O que chamo de estilo dos pensamentos filosóficos, seu “jeito de ser” se você preferir, é se examinar, se interrogar para saber se eles são verdadeiros ou falsos, ou até, mais simplesmente, para saber sobre o que exatamente eles falam. É isso o que os torna especiais.

Pode me dar um exemplo?

– Posso. Você sabe o que é um número?

Claro que sei. Sei que existem números inteiros, números decimais…

– É, mas um número é o quê?

Ora… um número!

– Parabéns! Progredimos bastante… Diga-me então o que é isso, já que você sabe tão bem.

É um algarismo.

– Ah, não! Os algarismos (0 a 9) servem para escrever os números, mas são realidades diferentes: você tem dez algarismos e uma infinidade de números… e você pode escrever um mesmo número, o três, por exemplo, em algarismos arábicos (3) ou romanos (III). Portanto, número e algarismo não são a mesma coisa. Então, recomeçando: o que é um número?

É uma ferramenta para contar.

– Como um ábaco? Como uma calculadora? Como os dedos?

É simples! Um número é uma coisa que dá para ver na realidade. Ali tem dois sapatos, aqui três velas… Olhando para eles, entendo o que é. E digo “dois”, “três” etc.

– E como você pode contar sem ter o número? Pense… Não é porque você vê essas três velas que você tem a idéia do número três. É porque você já tem na cabeça esse número que pode saber que ali tem três velas e não quatro ou cinco.

A verdade é que essa história é irritante… É verdade que não sei explicar o que é um número! Aliás, por que você me fez essa pergunta?

– Para fazer você ver o estilo especial das perguntas filosóficas. À primeira vista, achamos que o número é somente do campo da matemática e, achamos, principalmente, como você fez, que sabemos muito bem o que ele é. Depois, quando tentamos dizer o que é, nos atrapalhamos, percebemos que não sabemos. Descobrimos que o que estava claro é vago e confuso; que o que sabíamos já não sabemos mais. E é irritante!

O jeito que os filósofos têm de indagar muitas vezes provoca esse tipo de irritação. Sócrates foi o primeiro a ficar famoso pelo seu costume de surpreender as pessoas desse jeito. Passeando pelas ruas de Atenas, a cidade grega aos pés do Partenon, começava a discutir com as pessoas e mostrava-lhes que elas, na verdade, não sabem o que acham que sabem.

Por exemplo, Sócrates interroga um velho militar, um general que lutou várias vezes e que conhece a guerra. Esse soldado acredita saber o que é a coragem e explica: a coragem, diz ele, é não ter medo. Sócrates lhe pergunta simplesmente se aquele que tem um medo terrível mas que assim mesmo luta, superando o pânico, não é mais corajoso do que aquele que não sente medo nenhum. O general concorda. Portanto, sua idéia da coragem não era correta. Como você pode imaginar, o militar fica furioso quando fazem com que ele veja que está enganado justamente sobre aquilo que acredita conhecer melhor.

Exemplos desse tipo há tantos quantos você quiser nos diálogos de Platão, que por muito tempo escutou Sócrates e encenou, digamos assim, sua maneira de fazer perguntas irritantes. Sócrates pede a um professor um tanto pretensioso, que afirma saber uma quantidade enorme de coisas e ser capaz de responder a qualquer tipo de pergunta, que diga o que é a beleza. Este tem um ataque de riso: é uma pergunta fácil demais! Qualquer criança responderia, ele sabe tudo isso de cor, Sócrates zomba do mundo com suas perguntas de uma facilidade ridícula… A resposta é simples: um vaso de ouro, diz ele, é isso a beleza.

Então Sócrates tem de lhe explicar que é evidente que ele não entendeu nada de sua pergunta. Não pediu que lhe dê um exemplo de coisa bela, mas que lhe diga o que é “ser belo”, no que isso consiste, como isso se define. Por longos instantes o outro nem mesmo consegue entender de que se trata, ou de que maneira se enganou. Continua no caminho errado, dizendo que beleza é também um cavalo de corrida ou uma jovem moça. Sócrates indaga-lhe sobre a beleza, ou seja, sobre o que permite julgar que todos esses exemplos (um vaso, um cavalo, uma jovem) têm em comum o fato de serem chamados “belos”. Em outras palavras, o que interessa a Sócrates é…

– A idéia de beleza?

– Isso mesmo! E, quando por fim entende que é disso que a pergunta trata, o pretensioso Senhor Sabe-Tudo fica bem embaraçado. Percebe que é incapaz de definir a beleza. Achava que sabia o que é, como todo o mundo, e descobre que na verdade não sabe nada. Como você, há pouco, com o número…

– E existem muitas coisas assim que a gente acha que sabe e na verdade não sabe?

– Toneladas de coisas! Um famoso filósofo chamado santo Agostinho dizia: “Quando não me perguntam o que é o tempo, eu dei. Quando me perguntam, não sei mais.” Pense nesse exemplo. Existem muitas idéias que cabem nesse caso. Como o tempo, acreditamos saber de que se trata enquanto não temos de explicá-lo de maneira clara e precisa. Assim que temos de falar a respeito com exatidão, ficamos em situação embaraçosa. A filosofia é a atividade que consiste em tentar sair desse embaraço.

– E dá para conseguir isso?

– Em geral, dá. Por sorte nem todas as perguntas ficam sem resposta! Em filosofia também existem problemas que encontram solução. Nem sempre, evidentemente, pois acontece de toparmos com novas perguntas que só fazem aumentar o embaraço. Mas isso não é grave. Ao contrário, é até bom…

– Se é embaraçoso, não é uma coisa boa!

– Na verdade é. Só que temos de nos entender primeiro sobre o sentido do termo “embaraçoso”. Na vida de todos os dias, preferimos o que não é embaraçoso. Afastamos as coisas que ocupam muito espaço (as embalagens, malas grandes), que estorvam fisicamente e que impedem os movimentos. Mesma coisa no que se refere à mente: normalmente, procuramos expulsar as preocupações que poderiam se tornar paralisantes, que poderiam criar um incômodo na nossa cabeça ocupando espaço demais.

Esse não é o sentido que convém se quisermos compreender por que os filósofos no final das contas gostam das perguntas que provocam embaraço. O embaraço, nesse caso, é o que espanta e faz avançar. Se eu lhe perguntar o que é um número, primeiro você fica embaraçada, no sentido de que descobre que não sabe o que dizer embora parecesse tão evidente. O homem para quem Sócrates pede para definir coragem ou a beleza experimenta a mesma sensação. É também a perturbação que Agostinho sente quando lhe perguntam o que é o tempo.

Acho que a filosofia nasce dessa forma de perturbação, dessa espécie particular de mal-estar. É seu ponto de partida. Na verdade, é como o espanto. Pensamos: “Como! Não sei claramente o que é um número? (Ou a coragem, ou a beleza). Vou ter de pesquisar!”.

A filosofia começa sempre com essa descoberta de nossa ignorância. Não conseguimos responder, embora pensássemos ter a resposta e ser capazes de dá-la sem dificuldade.

– É meio desestabilizante essa sensação de não saber mais…

– É, não é confortável. É bem mais tranqüilizador ter respostas prontas, já feitas. Essa descoberta da nossa ignorância provoca a cada vez um choque. Primeiro, desestabiliza, é verdade. Como uma puxada de tapete, nos desequilibramos, ficarmos sem ponto de apoio. Desse ponto de vista, a filosofia é sempre “inquieta” – no primeiro sentido desse termos, isto é, não tranqüila, sem repouso. Ficamos sempre mais calmos com certezas. Você tem razão quando diz que há nisso algo de desagradável. Aliás, é por isso que não se gosta muito dos filósofos em certos casos: eles nos impedem de ficar adormecidos, eles nos acordam. E, por causa deles, é preciso pôr-se a caminho.

– Para ir onde?

– Adivinhe!

– Procurar a verdade?

– É claro! E é uma viagem que pode ser longa, difícil, cansativa e sem garantia que terminará bem. Ainda assim, desde que a filosofia apareceu na história da humanidade, sempre existiu gente disposta a sacrificar tudo para se lançar nessa aventura.

– Por que eles fazem isso? Por que todos eles buscam a verdade?

– Pelo motivo bobo de descobri-la! Alguma coisa nos seres humanos os faz desejar a verdade. Não nos ocupemos em procurar saber de onde isso vem nem como funciona. Essas questões nos levariam longe demais. Mas temos de marcar a importância dessa “alguma coisa” que faz procurar a verdade. Também é chamada de desejo de saber. É a mesma coisa: ninguém deseja conhecer algo falso. Quando queremos saber, queremos saber a verdade.

– Mas não são só os filósofos! Também a gente, os jovens, os pais…

– Certo. E quem mais?

Os cientistas, por exemplo, como dissemos no começo.

– Tem toda a razão, mas, na verdade, é parecido. Entre os filósofos e cientistas não há muita diferença.

Como assim? Não são a mesma coisa!

– De fato, hoje se tornaram muito diferentes. E o trabalho dos biólogos, dos químicos ou dos geólogos parece, com razão, muito distante do dos filósofos. Mas essa separação é relativamente recente. Durante séculos, os filósofos faziam ciência, matemática, física, ao mesmo tempo em que refletiam sobre questões de moral ou de política.

Há um único desejo de saber, de saber tudo, em todo caso de saber tudo o que é possível compreender e conhecer. E em todos os campos. É por isso que os filósofos da Antiguidade, da Idade Média e ainda os da época clássica procuravam saber a verdade a respeito do mecanismo das marés como a respeito do melhor governo. Isso não os impedia de se indagarem ao mesmo tempo sobre o que é o bem, a justiça, a felicidade, ou a amizade. Podiam ocupar-se de entender ao mesmo tempo como está constituída a alma humana e como se dá a digestão nos peixes…

O sonho da filosofia era, com efeito, conseguir conhecer tudo, poder abraçar a totalidade dos saberes. Por trás desse sonho havia a idéia de que a verdade não está recortada numa multidão de setores independentes uns dos outros: aqui a biologia, ali a política, em outro lugar a moral.

Mas como todas essas pesquisas podiam se combinar?

– Para nós, hoje, não é fácil de entender. Custa-nos imaginar como era a situação antes da separação dos saberes em vários campos muito distintos. No entanto, essa concepção de uma unidade do conhecimento durou muito tempo e era muito forte. Marcou profundamente a história e o próprio projeto da filosofia. Por isso não é inútil insistir mais uns dois minutos, se você não se importar, sobre…

Certo, mas seja breve, já estou ficando cansada.

– Uma única palavra: “sophós”. É grega e quer dizer duas coisas ao mesmo tempo: “erudito” e “sábio”. Para os gregos da Antiguidade, os dois sentidos não se distinguiam: ser erudito também é saber viver bem a vida. Ser sábio é necessariamente ter adquirido conhecimentos.

Há um personagem que é impossível nessa visão das coisas: o “cientista maluco”, aquele que possui uma considerável ciência mas que tem a ambição de possuir o poder supremo.

“Hahaha!… vou apertar esse botão e serei senhor do mundo… hahaha!”

– Isso mesmo. Esse personagem é impensável para um grego da Antiguidade. Se esse homem é um erudito, será bastante sábio para não sonhar em se tornar senhor do mundo. E, se quer dominar o mundo, é porque não é um verdadeiro cientista. Os gregos pensavam profundamente que o conhecimento do que é verdadeiro contém o conhecimento do que é bom. Saber não era apenas se instruir, era também se transformar, se tornar melhor.

O que isso tem a ver com a gente?

– Pelo menos isto: o adjetivo “sophós”, “sábio-erudito”, você encontra em “philosóphos”, filósofo. “Philó”, ainda em grego antigo, é amar de amizade, ser amigo de, desejar. O filósofo é aquele que deseja se tornar “sophós”, é o amigo de “sophía”, ou seja, o conhecimento-sabedoria. Veremos como esse duplo significado, dois em um (saber e sabedoria são expressos por uma única palavra, “Sophia”), vai se dividir e se separar no curso da história. Alguns considerarão a filosofia um amor à sabedoria, outros, a busca do saber. Mas, por enquanto, vamos parar por aqui. Já avançamos bastante para um começo. Bom descanso!

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