Professor, mas filosofia não é a arte pensar?

pensar

Defrontei-me com tal questão por parte de aluna de terceiro ano do ensino médio de uma escola pública do município de São José ano passado. Pergunta curiosa que surgiu após a aluna receber uma nota ruim por conta de uma prova sobre falácias e outros assuntos. A aluna então me interroga: “Meu pensamento está errado, professor? Mas filosofia não é a arte de pensar? Meu pensamento não é só diferente do seu?“. Já havia tido contato com certo tipo de comentário semelhante em 2005 quando fiz estágio numa espécie de supletivo para funcionários da UFSC e terceirizados. O aluno do último módulo me dizia: “professor, mas o meu pensamento para mim está certo. Esta nota se refere ao que o senhor acha certo“. Nos comentários da aluna há alguns pressupostos por baixo, passo a analisá-los: 1) De que todo pensamento, por ser pensamento, ou por ser de uma pessoa, é certo e não pode ser julgado; 2) Não faz sentido uma disciplina de filosofia, pois afinal, todos somos filósofos e todos temos nossas idéias e pensamentos e não cabe julgá-los, mas sim, respeitá-los. 3) Não há nada objetivo a partir de onde se possa julgar pensamentos.

Tentei explicar a aluna dando uma resposta meio burocrática. Disse-lhe que se tudo que ela pensa é certo, ou tudo que ela pensa é filosófico, então não faz sentido uma pessoa como eu estar ali a ensinar-lhe algo. Afinal, que fiquei fazendo por quatro anos numa universidade se ao fim qualquer um pode dizer o que quiser e isso não deixa de ser certo, ou de ser filosófico? Esta resposta se refere somente a uma justificativa pela qual alguém pode ministrar aulas de filosofia em escolas. Não enfrenta a questão colocada de frente.

Quanto ao senhor o que lhe respondi foi fazendo uma pergunta: “você, então, acha que não existe objetividade alguma? É o reino das opiniões? Você diz uma coisa e eu digo outra e ficamos assim?“. A prova que fiz com essa turma foi mais complexa. Trabalhei alguns trechos de textos filosóficos e outros tirados de livros de filosofia para ensino médio, sempre no máximo uma página ou duas, que eram, à medida do possível, dissecadas em aula. Na prova pedia, com o auxílio dos textos, que reconstruíssem a argumentação de Platão sobre por que a virtude não poderia ser definida, num trecho do Mênon. E a outra pergunta se referia a um breve trecho do Teeteto de Platão que discutia a questão do relativismo.

O curioso de tudo isso é as pessoas acharem que tudo que elas pensam é certo e não pode ser julgado. Há na escola uma espécie de regra: “quando o professor pedir a opinião pessoal, essa está sempre certa“. Se uma pessoa dá uma opinião pessoal baseada em fatos históricos errados, ou em dados empíricos falsos ou mal interpretados (por exemplo, dizer que algo é vermelho quando na verdade é verde, ou dizer que algo foi provado quando não foi, etc), ou em preconceitos, como é possível que isso esteja certo de alguma maneira? Podemos não saber com clareza e em última análise o que são esses pensamentos certos, mas sem dúvida sabemos identificar erros, preconceitos, idiossincrasias. E isso nos basta.

Interessante ainda que para um aluno de nível médio uma opinião nunca precisa ser fundamentada. Emitem frases como: “Sou contra os homossexuais”, “sou contra o aborto”, “a justiça não existe”, etc. E crêem que desse modo estão realmente dizendo algo quando na verdade só estão dizendo coisas sem procurar se importar muito com aquilo que é dito. Sem muita preocupação se aquilo está certo, ou não está, se está bem fundamentado ou não, se é apenas por preconceito ou se é por uma questão mais séria, legítima. Então no fundo as “opiniões” nem são opiniões de fato. São vácuo, são nada. São frases soltas no ar sem algo que as sustentem.

A questão segue e pode-se aprofundar muito mais do que estou fazendo aqui, mas não quero cansar ninguém. Em sala de aula se tentasse dar uma resposta como essa que estou a dar aqui já veria os bocejos para todos os lados, ou pessoas ao celular, ou com seus mp3, mp4, ipod’s ligados. São os nossos pensadores de amanhã. Não digo que pensar seja bom ou mau em si, em muitos casos pode até fazer mal, porém parece nos que analisar nossas opiniões pode melhor do que não analisá-las. A afirmação é perigosa, mas é uma crença que a sociedade inteira alimenta.

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7 comentários sobre “Professor, mas filosofia não é a arte pensar?

  1. Daniel, legal o blog, já deverias ter feito há tempos!

    Mas se “filosofia é a arte de pensar”, a própria aluna ao tentar usar tal frase para se defender já demonstrou que o relativismo aí não se cabe. Ainda mais se levarmos a palavra “arte” da perspectiva grega. A frase já aponta que não é possível pensar de qualquer jeito, ou que, pelo menos, pensar de qualquer jeito não é filosofia, visto que se pede um domínio de alguma “arte”.

  2. Talvez ela estivesse pensando na arte pós-moderna onde a=c e b=d e vice-versa, 1=2 e assim por diante ad infinitum.

    Interessante que é possível trabalhar apenas elucidando aquilo que os alunos querem dizer quando fazem certas afirmações. Só se essa atividade de esclarecimento já é de uma riqueza enorme.

  3. Daniel, parabéns pela iniciativa do blog. O tipo de confusão que apontas é muito comum, cabendo a nós professores de filosofia dissolvê-las o mais possível. Tarefa difícil. De todo modo, ampliar o debate é no mais das vezes muito saudável. Tentarei frequentar mais esse “espaço”! Há braços.

  4. Sim, é uma confusão interessante que permite que nós a partir disso dissolvamos uma série de equívocos e mesmo é uma deixa para se discutir o que significa pensar, pensar filosófico, por que se fala tanto em ‘arte de pensar’ e o que se quer dizer com isso e etc.

    Talvez faça o post número II sobre arte de pensar.

    De todo modo obrigado por ler e participar do blog, Giselle. Fico contente por isso. Respeito tua opinião e teus comentários sempre pertinentes.

  5. Filosofar é uma atividade contínua em busca de algo
    Geraldo Felício da Trindade – trindadefilosofia@yahoo.com.br
    A Filosofia é uma ilustre desconhecida em nossa sociedade.
    Sabe-se dos avanços reflexivos e das atividades do pensar promovidos pelo homem. Este provocado pelos problemas, pelas dificuldades e questões que o aflinge e permeiam toda a sociedade necessita re-elaborar todo o pensamento, convicções e compreensões.
    A tentativa de pensar o problema e assim procurar sua solução é tão importante e necessária quanto a mera descrição do fato. É verdade que os problemas que atormentam nossa humanidade não sejam tão inovadores, porém estão presentes e são tão atuais quando surgiram. Aqueles que se propõem a pensá-los nem sempre encontram soluções e respostas, mas, às vezes propostas, embora não possam ser consideradas definitivas e absolutas.
    A realidade é um convite permanente à reflexão. Assim sendo, a Filosofia desponta como uma análise pensante, racional e lógica de uma realidade, que é síntese e símbolo de sua época, embasada somente na capacidade de pensar.
    Os “amigos da sabedoria” se prezam em estudar os problemas, a discutir as conclusões abrindo sempre novas perspectivas. Tais questões não podem ser tratadas em laboratórios; através de cálculos matemáticos, fórmulas químicas; mas são avaliados por uma explicação racional, com validade geral e que é aceita em sua época.
    Enquanto cada ciência, como a biologia, a física, a economia, dentre outras, procuram explicar parte da realidade. Resta, destarte, à Filosofia analisar a realidade a partir de uma cosmovisão. Em paralelo à filosofia sistemática, metódica e acadêmica há a chamada filosofia de vida; que é a visão de vida e de mundo que cada um tem para si como verdade. Essa forma não deixa se ser a análise de aspectos diversos, já que a realidade é um convite permanente à reflexão. Assim, a Filosofia em suas mais diversas matizes desponta como uma análise pensante, racional e lógica de uma realidade.
    A ânsia de saber é necessária. Como é também necessário sair do comodismo. Não é a busca de querer encontrar soluções e conclusões imediatas e sólidas, mas tanto na Filosofia quanto no simples pensar humano a dúvida se faz presente. Pode-se abranda-la ou diminuí-la, mas nunca aboli-la. Ela proporciona a capacidade de sempre avançar, buscando sempre novos horizontes.
    A Filosofia é como diz o filósofo Bertrand Russel, “uma atividade contínua e não algo que possamos atingir, de uma vez por todas.”

  6. Olá Daniel. Belo blog, belo post.
    Todos nós, professores de filosofia, já nos deparamos com esse tipo de questão. Entre as causas que você apresentou, adiciono uma: todos acham-se capazes de filosofar. Afinal, filosofar não é simplesmente pensar e, a partir do próprio pensamento, ter uma opinião? Em conjunto com o problema do relativismo absoluto referido por você, a crença na capacidade universal de filosofar causa esse tipo de situação. Eu vejo várias saídas para esses casos, além das duas que você postou. Uma utilizada por um amigo também professor de filosofia, o André Mendonça, é valorizar o questionamento do aluno, mostrando que há correntes filosóficas que afirmam justamente esse tipo de coisa. Outra, que é a que eu costumo usar, é demonstrar, a partir do que o aluno disse, que o aluno não sabe do que está falando.
    No mais, parabéns pelo blog bem feito. Se você não se importa, coloquei um link para cá no meu blog.
    Um abraço,
    Gustavo

    • Olá Gustavo,
      Obrigado por ler e comentar!
      Seria bacana que se o aluno ao ouvir que outros já disseram o que ele disse há séculos atrás ele fosse correr atrás e tentar entender o que disseram e por que disseram. Infelizmente, o que ocorre é que o aluno acha-se o filósofo e por isso não precisa mais ler coisa alguma. Espero que seu amigo tenha bons exemplos, ou contra-exemplos.

      Tua estratégia já acho mais interessante. É um trabalho duro fazer com que o aluno perceba o quanto ele precisa aprender. Ainda mais nesta idade.

      Não me importo de maneira alguma. Fico contente e me sinto lisonjeado por manter contato com bons exemplos de professores de filosofia.
      Um abraço,
      Daniel

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